Uma Broadway à moda do Porto

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Texto: Susana Ribeiro

Fotos: Pedro Granadeiro/Global Imagens

Publicado na revista Notícias Magazine, em junho de 2013

Os cursos universitários não lhes trouxeram a realização profissional. Já os musicais mudaram-lhes a vida. Bruno Galvão e João Ribeiro são produtores e têm o sonho de fazer, no Porto, uma espécie de Broadway. Ou pelo menos fazer musicais na cidade. Nos últimos quatro meses tiveram em palco, no Rivoli, o musical Zorro , com textos e músicas originais. Um produto totalmente made in Portugal e que em breve vai estar nos palcos lisboetas.

Os musicais entraram de rompante na vida de Bruno Galvão e João Ribeiro. «Foi amor à primeira vista», diz Bruno. Depois de terem tirado cursos em áreas completamente diferentes, desporto e recursos humanos, renderam-se ao teatro musical e tiveram a força e a energia para criar uma produção de raiz, no Porto. Agora estão ambos à frente da Elenco Produções e são os produtores do musical Zorro , o espetáculo que nos últimos quatro meses encheu a sala do Teatro Rivoli, no Porto.

Agora com 28 anos (Bruno) e 29 (João) estariam a trabalhar nas áreas que escolheram, não fosse o facto de terem passado pela Academia de Música Vila do Paraíso, em Vila Nova de Gaia, onde começaram com aulas de canto. «Na altura não ligava nada à música», confessa Bruno. «Um dia fui com uns amigos ver um espetáculo da Academia de Música Vilar do Paraíso e gostei mesmo. Foi então que me inscrevi nas aulas de canto.» A partir daí, mudou todo o trajeto da sua carreira. Enquanto estudante ainda fez parte do elenco de vários musicais de Filipe La Féria, como Jesus Cristo Superstar , UmViolino no Telhado , Piaf , Feiticeiro de Oz , entre outros.

Também João Ribeiro foi para as aulas de canto. Entraram os dois para o coro ligeiro da Academia e fizeram musicais juntos como Rei Leão . «Eu era o pai (Mufasa) e ele o filho (Simba)», diz Bruno, entre risos. «Fazíamos tudo: cantávamos, dançávamos e atuávamos», confirma João, acrescentando que «foi aí que nasceu a paixão pelos musicais.»

A vontade de subir aos palcos era tanta que os estudos iam ficando de lado. Concluíram os cursos mas já era só a música que lhes interessava. «Ainda pensei largar o curso, mas consegui fazê-lo. Ia lá e fazia os exames, mas só a música e os espetáculos é que me interessavam», refere Bruno.

João Ribeiro, que foi desportista de alta competição em ginástica e vela (ainda dá aulas na marina da Afurada, em Vila Nova de Gaia), passou por aulas de piano e de guitarra mas nenhuma lhe despertou tanto interesse como as aulas de canto na Academia. «Na altura era mais uma desculpa para estar com os amigos. Mas começou aí esta paixão e mudou a nossa vida», diz Bruno. «É verdade», anui João, «sempre disse que queria desporto, mas só me apercebi de que não queria só isso quando comecei a participar e a ver musicais.»

Foi a Academia de Música também que lhes deu bases para a produção de espetáculos. «Éramos nós que fazíamos tudo. Íamos fazer as montagens do cenário, atuávamos e no final arrumávamos tudo», recorda João Ribeiro. Em 2005, surgiu uma oportunidade de organizarem um evento cultural para a Ordem dos Médicos. «Tínhamos vários amigos que eram músicos e gostávamos dos projetos deles. Em vez de convidarmos alguém, criámos logo o nosso primeiro projeto com vozes a capella e músicos, que era o grupo G Clef.»

Continuaram com os eventos culturais enquanto estudavam mas, já nessa altura, surgiu a ideia de produzir um musical. Ainda na brincadeira, claro. Bruno chegou a morar três meses em Nova Iorque. «Trabalhava metade do tempo num restaurante e outra metade ia ver musicais à Broadway. Quando saí de lá tive a certeza de que queria fazer aquilo na minha vida.»

Os musicais que Bruno interpretava na companhia de La Féria não lhe enchiam as medidas e também João não se sentia preenchido só com a vela. Queriam trabalhar mais em teatro musical e decidiram criar a sua própria empresa: a Elenco Produções. Quis o destino que, em 2010, a produção de um espetáculo infantil, que estavam a preparar para o pequeno auditório do Rivoli, não fosse para a frente. «Ficámos com as datas disponíveis e pusemo-nos a pensar no que podíamos apresentar nessas datas. Ligámos ao músico Artur Guimarães e ele disse logo “fazemos um musical mas no grande auditório”. E foi assim que, em 2010, surgiu o primeiro musical produzido pela dupla: Cinderela XXI , que teve sala esgotada nos 17 dias de apresentação, num total de vinte mil espetadores. «A verdade é que sabemos como o conseguimos. Temos perfeita noção de que a maneira como montámos a nossa equipa foi muito ponderada. Juntámo-nos às pessoas que poderiam trazer-nos o know-how que não tínhamos de produção. Isso ajudou-nos imenso», revela João Ribeiro.

Seguiu-se, em 2011, o musical A Ilha do Tesouro , outro sucesso de bilheteira; e este ano produziram Zorro . «Baseamo-nos numa história ou num título e, a partir daí, nasce algo novo. A história, a música, a letra, o enredo e a dramaturgia, é tudo original em todos os musicais que fazemos», dizem os produtores. Por não terem qualquer tipo de apoio, a não ser de empresas parceiras, e de dependerem da bilheteira, o dinheiro é controlado ao cêntimo: «O teatro musical é uma arte, mas não deixa de ser um negócio e é preciso pagar tudo direitinho no fim do mês. Só fazemos os projetos se tivermos dinheiro. Primeiro juntamos o dinheiro. E depois avançamos. O orçamento fica bem definido com os pés assentes na terra. E apesar de as parcerias nos pouparem dinheiro e de sabermos que os tempos são difíceis, gostávamos de ter mais publicidade associada.»

Apesar disso, nunca concorreram a apoios: «Nunca quisemos perder energias a concorrer a fundos. Para concorrer, temos de recorrer a advogados, porque é preciso ter alguém que sabe como funciona. A candidatura, se estiver mal, não vem para trás para se mudar. Simplesmente não é aceite e vão meses de trabalho e dinheiro pelo cano abaixo. E nós precisamos de ter esses meses de trabalho a vender bilhetes, porque é disso que vivemos», diz João Ribeiro.

Agora já estão a pensar no próximo musical, que deverá ser apresentado pelo Natal, no Porto. Zorro está previsto nessa altura em palcos de Lisboa. Entretanto, os projetos continuam a surgir e um deles é criar uma escola de musicais da Elenco Produções. «De vez em quando fazemos castings para envolver crianças nos espetáculos. O nosso próximo objetivo é criar uma escola, até porque há muito pouca formação em teatro musical», diz João Ribeiro. Para já, a recetividade das escolas aos espetáculos tem sido extraordinária. O que é uma espécie de colocar a semente para germinar.

Para todos

Zorro foi pensado para atravessar várias gerações, não cai no erro de ser muito infantil – ainda que as crianças vibrem com o herói Zorro -, e cativar os adultos. O espetáculo é todo feito em português e com talentos nacionais. Rui Melo encenou, Joana Quelhas tratou do movimento e assistência de encenação, Liliana Moreira escreveu os textos e Artur Guimarães fez todas as músicas de raiz, originais, cantadas em português e gravadas ao vivo.

Os cenários são aparentemente simples mas muito bem trabalhados, com uma Vila Garcia que quase parece verdadeira. Há momentos criativos como as coreografias de esgrima (todo o elenco teve aulas durante semanas), o trio mariachi cómico, uma dança de canecas e vozes únicas em palco. Há perto de cem pessoas a trabalhar, atrás e à frente das cortinas, e com nomes de valor artístico como Manuel Moreira, Pedro Pernas, Teresa Queirós, Nuno Martins, Ruben Madureira, Carlos Martins e Sissi Martins, entre outros. No final do espetáculo, o Zorro ou outros membros do elenco tiram fotografias com o público. Para mais tarde recordar.

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Na pele de Lobo (por Susana Ribeiro)

Podia ter sido médico ou informático, mas a paixão por coisas bonitas falou mais alto. As suas decorações e objetos estão em vários restaurantes, hotéis, lojas e casas de Portugal e do mundo. Eis Paulo Lobo, o mais famoso designer de interiores português, que começou de forma autodidata.

Nasceu há 51 anos em Lamego, mas fez do Porto a sua cidade. É casado e tem dois filhos – um rapaz de 19 anos e uma rapariga de 17. Fuma. Muito. Da lista de projetos em que o seu nome é referenciado já perdeu a conta aos números. Percebe-se. O rol é extenso e já passou os 130. A saber: o Bar Buondi, na Foz, o Cafeína, o Shis, o Bhule, o Twins, o Porto Palácio, e, em Lisboa, o recentemente reinaugurado Solar do Vinho do Porto, a nova loja do estilista Nuno Gama.

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Foto de Leonel de Castro

Muito recentemente assinou mais um projeto: Vila Vilarinha, no Porto, o seu primeiro empreendimento, moradias num condomínio fechado. E, para quem não lhe conhece a cara, mas apenas a obra, ele é o ruivo com ar entre o artista e o homem do campo que, recentemente, criou uma cadeira para Cavaco Silva. Sim, aquela em que a primeira-dama se sentou na apresentação oficial do projeto da Cadeira do Poder.

atelier de Paulo Lobo não desilude sobre a criatividade do maior designer de interiores em Portugal. Está num velho armazém de vinho do porto, na zona de Miragaia. Longe daqui, e num ambiente bem menos sofisticado, se iniciou a sua paixão pelo design, «por acaso» por volta dos 20 anos. Na altura, nem sabia bem que paixão era essa: «Tinha um gosto por coisas bonitas, mas nem sabia bem o que era aquilo. Foi apenas algo que surgiu em mim. Naquela altura tínhamos acesso a poucas coisas. Apenas ao que se via nas revistas e o que passava na televisão. Mas era muito pouco. Sempre gostei de coisas bonitas e a única coisa que conhecia na altura era precisamente a palavra “bonitas”. Era uma fase em que não se falava de design em Portugal.»

As coisas bonitas incluíam os tecidos que o pai, como é tradição na zona de Lamego, vendia nos armazéns de tecidos onde trabalhava. «Os tecidos apareciam lá em casa e eu gostava de ver as coleções e as texturas. Gostava das cores e de dar vida a cenários, por isso, era muito crítico em relação às montras dos armazéns que «eram muito cinzentas». Outra influência: da música clássica, através, também, do pai. «Claro que na altura não sabia, mas isso tudo influenciou-me depois.» Foi assim, sem saber ao certo como, que se foi envolvendo com o design. O gosto ia crescendo e também a curiosidade pelo que vinha lá de fora. «O Porto não está como estava há trinta anos. Infelizmente, não estava. Mas a mim sempre me despertaram interesse coisas que não existiam cá. E também não se viajava tanto na altura como se viaja hoje.»

Se não fosse essa paixão, hoje, Paulo Lobo poderia ser médico. «O meu pai queria que eu fosse para Medicina. Andei a frequentar um curso de espanhol para entrar na universidade em Santiago de Compostela. Mas comecei a faltar e não fui para lado nenhum. Depois, tive um amigo que me convidou para trabalhar com ele em informática, que era uma coisa nova na altura.» Não percebia nada de informática mas ia tentando. Teve uma formação na Apple, em Lisboa, e teve «a sorte» de ter o primeiro Macintosh em Portugal nas suas mãos. «Aquilo era tudo muito bonito. Mas também me fartei. Os computadores eram muito lentos e eu queria ser muito rápido.»

A indefinição do que queria fazer da vida resolver-se-ia, naturalmente, e por força das circunstâncias, como acontece muitas vezes. A namorada de Paulo Lobo – atual mulher e mãe dos dois filhos do designer – queria ter uma loja de roupa no Porto, mas não tinha orçamento para grandes mudanças ou decorações. Paulo acabou por, com um amigo, lhe produzir a loja. «Ela abriu e foi um sucesso. Muita gente que visitava o espaço perguntava quem tinha feito a produção e foi assim que tudo começou.»

Apareceram alguns convites, mas Paulo Lobo não queria voltar a trabalhar por conta de outrem. Por isso, em 1985, abriu uma loja de mobiliário, no Parque Itália, no Porto. «Vendia muito bem» e seria o seu cartão de visita. Quem a descobria queria imediatamente saber quem tinha sido o autor do design. Os convites surgiram. Nomeadamente o de António Coelho «uma referência da moda na altura», que trabalhava com o estilista Manuel Alves. «Ele gostou muito do meu trabalho e convidou-me para fazer uma loja na Foz que se chamava Cúmplice.»

Esta foi a rampa de lançamento da carreira de Paulo Lobo no design de interiores e a fama chegou quando, em 1989, fez o Buondi Café, na Foz. «Na altura era muito novo, a empresa que me tinha convidado era muito sólida.» Tinha 29 anos. O projeto foi um sucesso e «ultrapassou tudo o que estava previsto. Se se tivesse mantido aberto, ainda estaria atual». A partir daí, «deixou de ser uma brincadeira». Paulo começou a conjugar a palavra design, algo «de que ninguém falava em Portugal e que existia lá fora».

O interesse foi crescente e começou a ver como se trabalhava, junto dos operários e artesãos. «Vivi muito com essa gente toda, que me ensinou muita coisa. Primeiro a maneira de construir. Como se constrói e as técnicas. Andei muito em obra e a perceber, na Europa, o que era o design e o que era o que eu fazia. Nem eu sabia muito bem o que era.» Na verdade, sentia que era único em Portugal ou que «poucos o faziam». «Já faziam arquitetura, claro, já faziam decoração, design gráfico, arquitetura de interiores, mas não faziam designde interiores, que é uma coisa totalmente distinta. Foram muitos anos que eu considerei de aprendizagem. Aprendi a trabalhar.»

O que é o design de interiores?

Alguém que trabalha uma área criativa tem sempre um mestre, uma inspiração. Enrico Baleri é o de Paulo Lobo. «É considerado um mestre do design italiano, responsável por peças muito importantes, que me marcou e que reconheceu o meu talento e o meu trabalho aqui em Portugal e que se tornou meu amigo. É um ensinador de design, com muita alma e com um sentido de humor fantástico. Em Itália, mostrou-me como se faz muita coisa. Com ele aprendi muito.»

Foi sempre assim, na carreira de Paulo Lobo. Ele considera-se um designer por natureza. E não gosta de ser chamado decorador. «Apenas porque é uma coisa diferente. É alguém que faz decoração. Muda a cor, coloca a jarra na mesa…» A chave da diferença está no design que dá aos objetos a sua forma. «Qualquer objeto que se vê foi desenhado. Desde o secador aos óculos de sol. Alguém desenhou e esse desenho foi pensado para cumprir uma função. É a chave dos interiores. Daí a grande diferença entre design de interiores e decoração. Esta limita-se a que fique bem, o outro tem de cumprir uma função.»

Pode o leitor nunca ter pensado nisso, mas sempre que entra num centro comercial, por exemplo, vai começar a reparar que houve um designer de interiores que se esforçou por criar um ambiente convidativo para se sentir impelido a comprar. Outro dos atributos do design de interiores nesses espaços é, de certa forma, ser mais chamativo, para que grandes marcas se instalem nesse, preterindo outros centros comerciais. «O designde interiores dedica-se muito a fazer espaços públicos e tem que ver com produto e com venda. Promove, faz, cria atmosferas para se venderem a elas próprias e aos seus produtos. Restauração, hotelaria, lojas de moda que, para além do produto, vendem uma atmosfera que vende esse produto. De uma maneira geral, é isso odesign de interiores», explica Paulo Lobo.

Um dos últimos projetos internacionais de Paulo Lobo foi realizado na Corunha. Esteve na produção de um The Style Outlet – um centro comercial idêntico ao de Vila do Conde. Também já tinha feito um outro em Madrid. «O objetivo era elevar o nível de qualidade do outlet para que se instalassem lá mais marcas de prestígio. O que foi conseguido com sucesso no de Vila do Conde. As lojas estão mais bem tratadas e quase chegam a ser como lojas normais de centros comerciais e não como lojas de outlet. O da Corunha é parecido com este. E o princípio é o mesmo.»

Paulo Lobo gosta de morar no Porto e não trocava por nenhuma outra cidade. Até porque, diz, contribuiu para a mudança da cidade com os seus projetos. E qual o que mais o desafiou? «Nenhum em especial. O Buondi sim, porque era muito novinho quando o fiz. Mas são todos um desafio, há uns mais fáceis outros menos. Outros mais complicados. Mas não há nenhum especial.»

A maior parte dos projetos do designer estão no Porto. Mas também os tem em Lisboa, Espanha, Itália, Suíça e Polónia. São mais de 130. Muitos mais. Mas Paulo Lobo já parou de os contar há muito. Um dia há de fazê-lo, promete. Nos internacionais, destaca um em Pescara, Itália: o restaurante Thomas Café. E, em San Sebastian, uma loja pequena para o conhecido estilista Manuel Pertega, que desenhou o vestido de casamento da princesa Letícia, em Espanha.

Os projetos

O processo de trabalho no seu atelier é sempre o mesmo e tem tanto que ver com marketing como comdesign. «As pessoas vêm com uma ideia daquilo que querem abrir e as razões. Passam por um programa, para descobrir qual é o público alvo, e esperam que eu desenvolva qualquer coisa que lhes traga sucesso. E o sucesso delas é naturalmente o meu.» Ainda lhe mói um pouco o juízo o facto de fazer um projeto com um objetivo definido e, depois, os donos do espaço alterarem tudo. «Agora não me incomoda tanto. Ou pelo menos tento passar por cima disso.»

No seu gabinete, realiza em média dez projetos por ano. E não tem dúvidas. A parte mais desgastante desta profissão «é negociar com os clientes». Não pelas negociações de preços, até porque Paulo Lobo diz ter um certo gozo em fazer projetos low-cost, sendo isso «um desafio». Mas pelos diferentes tipos de clientes que encontra pela frente. «Há os que sabem criticar e os que não sabem. Tentamos levar as coisas até ao fim mas, às vezes, envolve muita gente e é um processo complicado.» Para fazer design de interiores de casas diz ser preciso ainda uma dose extra de paciência. «É preciso que a base seja boa e o cliente também. As casas são diferentes. Não têm um produto que pretende ser vencedor. Têm uma família, com filhos, avó, sogra, e as pessoas envolvem-se muito… E eu não tenho muita paciência porque o processo torna-se mais lento.»

Por ter conseguido uma carreira a pulso, descobrindo de forma autodidata o seu caminho no design, fica irritado com alguns jovens designers que lhe aparecem pela frente e, diz, não sabem sequer as bases. «A interpretação entre forma e função é a chave do design e de qualquer produto de design. Acho incrível como existem pessoas, que são formadas nesta área, e não sabem o que isso é. Há gente nova com qualidade e outra que não sabe o que é o design. Estes últimos apenas imitam bem. Mas há um dia em que imitar não basta.»

Estilo minimalista?

A Paulo Lobo foram-lhe atribuídos vários estilos ao longo da carreira. Um deles o minimalista. «É verdade que tenho algumas coisas minimalistas de antigamente. As influências de hoje são muito baseadas na utilização de técnicas artesanais. É uma coisa que me interessa, não sei se é pela idade e pelas tendências internacionais. Hoje em dia querem-se coisas mais humanas. Quando se toca na peça sabe-se que houve alguém que fez aquilo à mão, a personalidade e a técnica de um artesão estão lá.»

Já teve várias lojas com objetos desenhados pelo designer e também por designers internacionais. Na altura eram novidade. «Era um apetite ter essas coisas cá na altura, porque não havia em mais lado nenhum.» Atualmente, Paulo Lobo tem a Lobo Taste e a Hats & CATS, no Porto. Na Lobo Taste, os produtos têm «técnicas puras do artesanato. Podemos ter peças de alguém que trabalha cestaria e que possa aparecer com a mesma técnica num biombo ou num painel. É algo que me interessa, mas também é uma tendência internacional».

Vai às feiras internacionais de design e lê as revistas todas da área. «Absolutamente tudo. Desde as revistas de moda, à música que teve sempre influência em mim. Gosto da world music. Gosto de apreciar a fusão de música tradicional com outros estilos. Depende do estado de espírito, mas gosto de muita música diferente.» Quando era miúdo gostava muito dos Stones e gostava de ter aprendido a tocar piano. Agora, comprar discos é um dos seus prazeres secretos. Um sonho? «Gostava de ter a melhor aparelhagem do mundo.» Confessa que não lê muito, gosta pouco de ir ao cinema «porque já só existem os de shopping» e o cheiro a pipocas incomoda-o. É tudo, como no design, uma questão de sensibilidade.

Nova loja na Ribeira

Acabou de abrir a nova Paulo Lobo no Porto. O novo espaço vai chamar-se Hats & CATS e fica na Ribeira do Porto, na Rua do Infante Dom Henrique. O nome tem um significado próprio. Hats – porque os chapéus, diversos e de todo o mundo vão estar em destaque – & CATS – significa Cosmopolitan Articles Tradition and Simplicity.

Enquanto a outra loja do designer, a Lobo Taste, junto à Bolsa, no Porto, apresenta produtos portugueses, esta tem como objetivo comercializar principalmente produtos de todo o mundo. «Desde acessórios de moda até peças de decoração, desde o Sri Lanka até Nova Iorque, por exemplo, dando destaque a muitos produtos artesanais», explicou Paulo Lobo à Notícias Magazine.

 

Entrevista de 2012

No Porto de bicicleta

Publicado na Tentações, edição de 1 de Setembro da revista Sábado.