A criadora de cores (por Susana Ribeiro)

Sabia que, quase todos os dias, são criadas novas cores? É essa a profissão de Céline de Azevedo: faz cores. Algumas chegam a ser tendências de moda.

Alguma vez reparou em todas as cores que o rodeiam no dia a dia? A designer de cor Céline de Azevedo repara. A inspiração vem de qualquer objeto. Desde uma folha de uma árvore a um papel simples. É assim o dia a dia de um designer de cor. Atento ao que o rodeia, às tendências, e a criar novas cores.

Céline de Azevedo é, desde 2004, responsável pelo departamento de Design de Cor do grupo de tintas CIN. Mas é apaixonada pelo tema há muito tempo. No que toca à moda, por exemplo, a designer está por dentro do trabalho das grandes agências internacionais do mercado têxtil, que definem as cores da moda que depois são seguidas pelos criadores e pela indústria. « No caso da CIN, costumamos fazer o contrário. A lgumas cores até acabam por coincidir, como os tons pastel deste ano, por exemplo. Mas o método de funcionamento é diferente do mundo da moda, até porque pintar uma casa ou um objeto não muda a cada estação. Quando pintamos, queremos que dure mais tempo e é nisso que também pensamos quando criamos uma cor. »

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Foto de Adelino Meireles

 

«O lançamento das tendências nas tintas é anual, porque o ritmo da decoração da casa não é tão rápido como o da moda. » As tendências para as tintas CIN são criadas com um ano de antecedência. Ou seja, nos laboratórios da empresa, na Maia, Céline já começou a pensar no catálogo de 2014. Já começou a analisar as tendências, a fazer workshops e formações com profissionais da mesma área e a visitar feiras de decoração. «Chamo-lhe a primeira fase de observação, em que vou recolhendo material de trabalho. » Mas convém não descurar a componente pessoal. «Vou recolhendo coisas que me inspiram: revistas de estilo de vida e decoração e também estou atenta à evolução da sociedade e ao contexto atual que se vive. Temos de ver como vamos viver na nossa casa no futuro. E isso também é relativo aos tempos que vivemos. » As cores vão refletir isso tudo. Durante cerca de quatro meses, a designer de cor faz essa recolha. Depois vem a fase de atelier , onde compila todas as ideias por tipo de cor e vai definindo caminhos.

Cada cor criada é única. «As cores contam histórias até pelo nome. E eu vou criando as minhas histórias. Cada coleção conta uma história e em cada cor há também uma história. » Como a história da «cor do ano». Em 2013 é «o amarelo soleil .» «Traz luz, brilho, bom humor, alegria e energia. Também está associado ao positivismo, à criatividade. Tudo o que precisámos para este ano. »

«As cores transmitem sensações. Quando fazemos cores para espaços, damos dicas sobre como tirar maior partido delas. Por exemplo, numa cozinha, o laranja é uma cor que dizem abrir o apetite, porque está ligada à cor da vitamina C e é uma cor positiva e alegre. Nos quartos de criança ou escritórios, os azuis são positivos porque, em termos fisiológicos, são relaxantes, baixam a pulsação e ajudam a ter mais concentração. »

A cor é um guia do quotidiano. Na seleção de resíduos – verde para vidro, azul para papéis, amarelo para embalagens -, nos semáforos e em tudo o resto. As marcas sabem disso e também estudam o impacte da cor que escolhem para logótipos. Quem fez a imagem do Facebook terá pensado que o azul era uma cor universal? Céline tem a certeza que sim. «Existem estudos que dizem que é a cor preferida por mais gente em todo o mundo. É uma cor pacífica – olhe os capacetes azuis da ONU – a cor do céu e do mar… Mas há também as marcas arrojadas com vermelho, como a Coca-Cola, ou multicolores – que significa criatividade e imaginação, que arrisca, é alegre e positivo – como o Google e eBay. A cor está sempre presente na nossa vida. Até na medicina, quando o médico vê que um doente está amarelo é porque está com algum problema. E a cor da fruta e dos legumes diz-nos se estão bons para comer ou não. Esquecemo-nos muitas vezes de que, para o nosso aspirador e o nosso secador de cabelo, há um designer de cor que pensa na cor que vai ter. E fazem a cor de raiz. Na área da cosmética, esquecemo-nos também de que as cores dos cremes e das embalagens são muito importantes para definir o cliente. »

O dia a dia de Céline de Azevedo é mesmo diferente. De manhã, mal abre os olhos, as cores saltam à sua frente e transportam-se para a veia criativa da designer . Está sempre a processar todas as cores que lhe aparecem à frente. É capaz de estar a olhar para uma peça e adivinhar qual é a cor da CIN que mais se assemelha.

Céline nasceu em França há 32 anos. Filha de pais portugueses, só está em Portugal há oito anos, por isso, ainda há muitas palavras a sair em francês quando se entusiasma a falar do trabalho. «O mundo da cor para mim é apaixonante. Gosto muito disto, de criar uma cor de raiz » , diz entusiasmada a designer que tem como cor preferida o verde. «O verde é natureza e é uma grande inspiração. Posso passar horas a digitalizar folhas de árvores para encontrar um verde específico que quero desenvolver. » Mas a ideia de criação de uma nova cor pode surgir a partir de um pequeno pedaço de tecido ou até de um simples papel. «Uma vez vi um folheto de uma peça de teatro e reparei que tinha um pormenor com um verde fantástico. Guardei e levei para o laboratório para criarmos um verde. »

Quando era criança passava a vida a pintar e a desenhar. Por isso, quando acabou o ensino secundário, já sabia que a sua área era a das artes. Mas qual? Quando teve mesmo de decidir viu que os seus trabalhostinham todos um ponto comum: a cor. «Trabalhar na cor permitia-me trabalhar em todas as áreas. Tinha encontrado uma vocação. »

Licenciou-se em Artes Aplicadas e Artes Plásticas e a especialização em Design de Cor, na Universidade de Toulouse. O seu primeiro trabalho foi, em 2003, no Atelier 3D Couleur, em Paris. É um atelier de design de cor, de Jean-Philippe Lenclos, que é tido como um pioneiro na área de design de cor. «Foi um dos primeiros a fazer definições de cores para os carros, para os telemóveis e a trabalhar para grandes indústrias e a definir a construção de gamas de cores.»

Trabalhou em várias áreas como designer de cor: teve experiência nas áreas de moda, indústria, arquitetura e trabalhou em projetos de urbanismo, onde definia paletas de cores para as cidades. «Em Portugal começa a ser definido, mas em França, Espanha, Itália, Inglaterra, já há uma tradição de usar as mesmas cores que identifiquem e tornem homogéneas as pinturas das casas.»

Uma das suas maiores paixões é a cor no património edificado. Foi por isso que, quando chegou a altura de fazer um trabalho de mestrado escolheu como tema «As Cores do Centro Histórico do Porto». Sempre viveu em França mas queria ligar-se a Portugal. «E sempre quis ter algo no meu trabalho sobre as raízes do país dos meus pais. »

«Gosto de explorar o mundo, de perceber as cores ligadas às cidades, a sua simbologia e a história da cor. Em termos de cor há uma riqueza no património português e o Porto tem uma riqueza cromática enorme que queria mostrar e divulgar através do meu estudo. » « O Porto, no centro histórico, é muito marcado pelos materiais como o granito e os azulejos. Quando falamos de cor através de tintas, há muitos ocres, amarelos, muitos rosas, vermelhos e apontamentos de verde e azul, que muitas vezes encontrámos em azulejos. »

Foi quando estava no Porto, à procura de material sobre cor para o seu mestrado, que encontrou um livro que tinha uma referência à CIN. «Não conhecia a empresa e, quando fui procurar na internet, identifiquei-me logo com o projeto da marca.» Chegou a estar um mês na CIN, porque pediu ajuda para o mestrado e para o estudo das cores da cidade do Porto mas, quando acabou, regressou a França. Uns meses depois, a empresa de tintas convidou-a para ser designer de cor. É lá que trabalha há oito anos. No seu dia a dia, cria novas cores – já lançou cerca de quinhentas – , produz catálogos com as tendências, constrói coleções e faz formações de cor. Com o apoio de toda a equipa dos laboratórios da CIN, são feitas novas cores e nuances todos os anos e lançadas as suas próprias tendências.