Um português criativo (por Susana Ribeiro, em Los Angeles)

 

Todos os anos, desde 2007, a Chevrolet premeia a criatividade juvenil, com o Young Creative Chevrolet (YCC). Este ano, um português esteve no meio dos vencedores com um terceiro lugar na área de vídeo: Paulo Lima, de 20 anos, de Vila Nova de Famalicão.

 

Os olhos cor de amêndoa da menina do vídeo captam a atenção de todos. A criança apanha um ralhete da mãe e, quando é mandada de castigo para o quarto, decide pintar numa parede um desenho que a faz sonhar. O desenho, com o planeta Terra e uma nave espacial, que leva uma menina para fora de órbita, é a sua forma de ir além da sua imaginação. No final, surge a frase Open the window of your life (abra a janela da sua vida).

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Este vídeo, de Paulo Lima, que alcançou o terceiro lugar do Young Creative Chevrolet, foi o único, entre os três primeiros, que não teve uma única imagem de um carro. O que não impediu de ser premiado. Para o júri do concurso, o vídeo do jovem de Vila Nova de Famalicão apresentou uma «ótima composição e narração de histórias – emoções são capturadas de uma forma interessante».

O Young Creative Chevrolet (YCC) é um concurso de arte e design da marca de carros para estudantes de artes na Europa. A ligação da marca com o cinema vem de longe e está intimamente ligada à ideia da América no cinema (ver caixa). A Chevrolet, que comemorou no ano passado cem anos, é a maior marca da General Motors mundial, com vendas

anuais de mais de quatro milhões de veículos em mais de 140 países. É a quarta maior marca automóvel mundial em termos de vendas e tem tentado combinar design e inovação, daí a existência destes prémios. Este concurso começou em 2007. Todos os anos, jovens artistas são desafiados a trazerem novas ideias para o mercado e a criarem dentro das suas áreas, como é o caso de moda, fotografia, vídeo e artes visuais.

Este ano, estiveram representados no concurso 24 países, 280 escolas da Europa e contaram-se mais de mil participações. Na categoria de Paulo Lima, em vídeo, foram registados mais de vinte concorrentes.

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A protagonista do vídeo de Paulo é Anita. Tem 10 anos e é prima de Paulo Lima. A mulher que aparece no vídeo é Conceição, a mãe do vencedor. E certamente que ambas nunca tinham imaginado fazer parte de um vídeo que iria passar nos ecrãs de Hollywood.

Paulo Lima está a tirar o curso de Cinema da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, e a fazer Erasmus na Faculdade de Blanquerna, da Universidade de Ramon Llull, em Barcelona.

O cinema está agora no seu dia a dia, mas nem sempre foi assim. Quando era miúdo queria ser arquiteto. «Foram influências do meu pai que é arquiteto e quando somos crianças queremos ser como os nossos pais», diz Paulo Lima.

«Durante alguns anos, estive orientado para a pintura e fiz artes visuais e foi isso que estudei no secundário. Mas tive um professor que me deu a volta.» E foi mesmo uma grande volta, porque Paulo nunca tinha gostado muito de cinema. «Não estava muito habituado a ir ao cinema e era algo a que não ligava muito.» Mas Fernando Silvestre, encenador do grupo de teatro onde Paulo participava, conseguiu mostrar-lhe um outro lado da sétima arte. «Ele gostava muito de cinema e principalmente do cinema americano. Mostrava-me filmes do Clint Eastwood e chamava a atenção para o que gostava nos filmes e comecei a prestar mais atenção e a gostar de cinema, mas ainda é algo muito recente e a minha bagagem cinematográfica é muito pequena. Mas de facto foi ele quem me impulsionou.»

Durante algum tempo fez teatro, numa companhia amadora de Vila Nova de Famalicão, o Andaime. Eram trabalhos de animação na rua, que Paulo gostava de fazer e onde se sentia à vontade, mesmo diante de tanta gente desconhecida. Faziam homenagens a escritores, por exemplo, como Mia Couto, e procuravam a interação com o público, em locais do interior como Arcos de Valdevez e Lamego. A primeira vez que ouviu recitar João Negreiros ficou apaixonado pela poesia e gostava de dizê-la. Tanto, que participou num concurso de dizer poesia e ganhou o terceiro lugar.

Tudo isso faz parte da sua vivência e tudo isso, sem saber bem como, o levou ao curso de Cinema na Universidade da Beira Interior, na Covilhã. O diretor do curso, o professor Luís Nogueira, tem por hábito enviar para os alunos e-mails de eventos, atividades, iniciativas e concursos ligados à área. Um desses e-mails era sobre o YCC e Paulo, que nunca tinha ligado a esses avisos do professor, decidiu participar. Obteve o terceiro lugar de vídeo e, no total, Paulo Lima ganhou 1200 euros pelo prémio nacional e mais dois mil pelo terceiro prémio a nível europeu.

A entrega dos prémios do YCC teve lugar em outubro, em Hollywood, Los Angeles. Paulo esteve lá. Durante três dias os vencedores conheceram a cidade e os famosos estúdios de cinema, como a Universal e a Paramount. Tiveram workshops com designers da General Motors e participaram num debate com atores, produtores e realizadores de filmes conhecidos, como Jon Landau (produtor de Avatar), Rob Cohen (realizador de The Fast and The Furious) e Ian Bryce (produtor de Transformers) que falaram dos desafios colocados à indústria do cinema nos dias de hoje.

Todos esses temas são caros a Paulo, que os sentiu, em ponto pequeno, na produção do vídeo que ganhou o prémio da Chevrolet. Andou a pensar no que haveria de fazer e decidiu meter as mãos ao trabalho. As ideias começaram a surgir em volta do conceito de «estar fechado num lugar, mas libertares-te de alguma forma», recorda, que é o que, no fundo, um carro nos faz.

«Pensei logo em alguém que se queria libertar, mesmo estando “preso” dentro de quatro paredes». Foi aí que se lembrou de fazer o vídeo com uma criança. «Porque é a altura de sermos rebeldes, e eu era uma criança rebelde e fazia muitas asneiras, e então foi daí que surgiram as ideias. É também quando tens vontade de mudar o mundo e não paras quieto», sublinha o premiado. «Na inocência da idade, há uma criança que só faz asneiras e que se quer libertar daquelas quatro paredes e cria um desenho para se libertar», reforça acrescentando a ideia de que «se calhar foi para o quarto de castigo e foi fazer uma coisa ainda pior do que a que tinha feito para a mãe lhe ralhar».

Convidou a prima Anita, de 10 anos, para fazer de protagonista e pôs a sua própria mãe, a fazer de mãe da criança. Essa proximidade às atrizes deu-lhe mais trabalho do que poderia imaginar. «Elas não são profissionais, é claro, por isso não estão preparadas para não se rirem. Essa era a parte mais complicada. Tive de as filmar em separado, mesmo quando parece que estão uma em frente à outra, porque senão não conseguia fazer o trabalho.» A ideia foi crescendo e Paulo Lima fez a planificação, o storyboard e em duas tardes filmou tudo com a sua máquina fotográfica Canon 550D. A mãe a ralhar à criança; a criança a resignar-se ao castigo de ir para o quarto; e a fazer um desenho do tamanho da parede do quarto. Esse desenho, que mostra o planeta Terra e uma menina a ser levada numa nave espacial para o espaço, foi também feito por Paulo durante uma noite. O premiado diz que essa foi a parte mais fácil. O pior foi quando teve de escolher as melhores imagens e os melhores planos. Demorou duas semanas a editar as filmagens e a fazê-las bater certo com a música original, que é também da autoria do próprio Paulo, composta toda em computador. É aliás no campo da música para filmes que está o sonho de Paulo Lima. «Gostava de compor e fazer bandas sonoras, como dobragens e o que se ouve e o que não se ouve nos filmes.» Não tem escola de música mas teve outras aulas que o ajudaram. «Já tive escola de som e algumas cadeiras de música e vou tendo alguma experiência do que vou fazendo. A música é o que dá emoção e ritmo às sequências e era mesmo isso que gostava de fazer», diz Paulo, convicto.

Já em edições anteriores foram registados vencedores portugueses. Em 2008, o 3.º lugar em fotografia e o 2.º em artes visuais; em 2010, o 1.º lugar em artes visuais; e, em 2011, o 3.º lugar em artes visuais. Foi, por isso, com Paulo Lima que Portugal conseguiu o primeiro prémio na área de vídeo.

Para ver o vídeo de Paulo Lima pode ir até www.youngcreativechevrolet.eu.

Na pele de Lobo (por Susana Ribeiro)

Podia ter sido médico ou informático, mas a paixão por coisas bonitas falou mais alto. As suas decorações e objetos estão em vários restaurantes, hotéis, lojas e casas de Portugal e do mundo. Eis Paulo Lobo, o mais famoso designer de interiores português, que começou de forma autodidata.

Nasceu há 51 anos em Lamego, mas fez do Porto a sua cidade. É casado e tem dois filhos – um rapaz de 19 anos e uma rapariga de 17. Fuma. Muito. Da lista de projetos em que o seu nome é referenciado já perdeu a conta aos números. Percebe-se. O rol é extenso e já passou os 130. A saber: o Bar Buondi, na Foz, o Cafeína, o Shis, o Bhule, o Twins, o Porto Palácio, e, em Lisboa, o recentemente reinaugurado Solar do Vinho do Porto, a nova loja do estilista Nuno Gama.

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Foto de Leonel de Castro

Muito recentemente assinou mais um projeto: Vila Vilarinha, no Porto, o seu primeiro empreendimento, moradias num condomínio fechado. E, para quem não lhe conhece a cara, mas apenas a obra, ele é o ruivo com ar entre o artista e o homem do campo que, recentemente, criou uma cadeira para Cavaco Silva. Sim, aquela em que a primeira-dama se sentou na apresentação oficial do projeto da Cadeira do Poder.

atelier de Paulo Lobo não desilude sobre a criatividade do maior designer de interiores em Portugal. Está num velho armazém de vinho do porto, na zona de Miragaia. Longe daqui, e num ambiente bem menos sofisticado, se iniciou a sua paixão pelo design, «por acaso» por volta dos 20 anos. Na altura, nem sabia bem que paixão era essa: «Tinha um gosto por coisas bonitas, mas nem sabia bem o que era aquilo. Foi apenas algo que surgiu em mim. Naquela altura tínhamos acesso a poucas coisas. Apenas ao que se via nas revistas e o que passava na televisão. Mas era muito pouco. Sempre gostei de coisas bonitas e a única coisa que conhecia na altura era precisamente a palavra “bonitas”. Era uma fase em que não se falava de design em Portugal.»

As coisas bonitas incluíam os tecidos que o pai, como é tradição na zona de Lamego, vendia nos armazéns de tecidos onde trabalhava. «Os tecidos apareciam lá em casa e eu gostava de ver as coleções e as texturas. Gostava das cores e de dar vida a cenários, por isso, era muito crítico em relação às montras dos armazéns que «eram muito cinzentas». Outra influência: da música clássica, através, também, do pai. «Claro que na altura não sabia, mas isso tudo influenciou-me depois.» Foi assim, sem saber ao certo como, que se foi envolvendo com o design. O gosto ia crescendo e também a curiosidade pelo que vinha lá de fora. «O Porto não está como estava há trinta anos. Infelizmente, não estava. Mas a mim sempre me despertaram interesse coisas que não existiam cá. E também não se viajava tanto na altura como se viaja hoje.»

Se não fosse essa paixão, hoje, Paulo Lobo poderia ser médico. «O meu pai queria que eu fosse para Medicina. Andei a frequentar um curso de espanhol para entrar na universidade em Santiago de Compostela. Mas comecei a faltar e não fui para lado nenhum. Depois, tive um amigo que me convidou para trabalhar com ele em informática, que era uma coisa nova na altura.» Não percebia nada de informática mas ia tentando. Teve uma formação na Apple, em Lisboa, e teve «a sorte» de ter o primeiro Macintosh em Portugal nas suas mãos. «Aquilo era tudo muito bonito. Mas também me fartei. Os computadores eram muito lentos e eu queria ser muito rápido.»

A indefinição do que queria fazer da vida resolver-se-ia, naturalmente, e por força das circunstâncias, como acontece muitas vezes. A namorada de Paulo Lobo – atual mulher e mãe dos dois filhos do designer – queria ter uma loja de roupa no Porto, mas não tinha orçamento para grandes mudanças ou decorações. Paulo acabou por, com um amigo, lhe produzir a loja. «Ela abriu e foi um sucesso. Muita gente que visitava o espaço perguntava quem tinha feito a produção e foi assim que tudo começou.»

Apareceram alguns convites, mas Paulo Lobo não queria voltar a trabalhar por conta de outrem. Por isso, em 1985, abriu uma loja de mobiliário, no Parque Itália, no Porto. «Vendia muito bem» e seria o seu cartão de visita. Quem a descobria queria imediatamente saber quem tinha sido o autor do design. Os convites surgiram. Nomeadamente o de António Coelho «uma referência da moda na altura», que trabalhava com o estilista Manuel Alves. «Ele gostou muito do meu trabalho e convidou-me para fazer uma loja na Foz que se chamava Cúmplice.»

Esta foi a rampa de lançamento da carreira de Paulo Lobo no design de interiores e a fama chegou quando, em 1989, fez o Buondi Café, na Foz. «Na altura era muito novo, a empresa que me tinha convidado era muito sólida.» Tinha 29 anos. O projeto foi um sucesso e «ultrapassou tudo o que estava previsto. Se se tivesse mantido aberto, ainda estaria atual». A partir daí, «deixou de ser uma brincadeira». Paulo começou a conjugar a palavra design, algo «de que ninguém falava em Portugal e que existia lá fora».

O interesse foi crescente e começou a ver como se trabalhava, junto dos operários e artesãos. «Vivi muito com essa gente toda, que me ensinou muita coisa. Primeiro a maneira de construir. Como se constrói e as técnicas. Andei muito em obra e a perceber, na Europa, o que era o design e o que era o que eu fazia. Nem eu sabia muito bem o que era.» Na verdade, sentia que era único em Portugal ou que «poucos o faziam». «Já faziam arquitetura, claro, já faziam decoração, design gráfico, arquitetura de interiores, mas não faziam designde interiores, que é uma coisa totalmente distinta. Foram muitos anos que eu considerei de aprendizagem. Aprendi a trabalhar.»

O que é o design de interiores?

Alguém que trabalha uma área criativa tem sempre um mestre, uma inspiração. Enrico Baleri é o de Paulo Lobo. «É considerado um mestre do design italiano, responsável por peças muito importantes, que me marcou e que reconheceu o meu talento e o meu trabalho aqui em Portugal e que se tornou meu amigo. É um ensinador de design, com muita alma e com um sentido de humor fantástico. Em Itália, mostrou-me como se faz muita coisa. Com ele aprendi muito.»

Foi sempre assim, na carreira de Paulo Lobo. Ele considera-se um designer por natureza. E não gosta de ser chamado decorador. «Apenas porque é uma coisa diferente. É alguém que faz decoração. Muda a cor, coloca a jarra na mesa…» A chave da diferença está no design que dá aos objetos a sua forma. «Qualquer objeto que se vê foi desenhado. Desde o secador aos óculos de sol. Alguém desenhou e esse desenho foi pensado para cumprir uma função. É a chave dos interiores. Daí a grande diferença entre design de interiores e decoração. Esta limita-se a que fique bem, o outro tem de cumprir uma função.»

Pode o leitor nunca ter pensado nisso, mas sempre que entra num centro comercial, por exemplo, vai começar a reparar que houve um designer de interiores que se esforçou por criar um ambiente convidativo para se sentir impelido a comprar. Outro dos atributos do design de interiores nesses espaços é, de certa forma, ser mais chamativo, para que grandes marcas se instalem nesse, preterindo outros centros comerciais. «O designde interiores dedica-se muito a fazer espaços públicos e tem que ver com produto e com venda. Promove, faz, cria atmosferas para se venderem a elas próprias e aos seus produtos. Restauração, hotelaria, lojas de moda que, para além do produto, vendem uma atmosfera que vende esse produto. De uma maneira geral, é isso odesign de interiores», explica Paulo Lobo.

Um dos últimos projetos internacionais de Paulo Lobo foi realizado na Corunha. Esteve na produção de um The Style Outlet – um centro comercial idêntico ao de Vila do Conde. Também já tinha feito um outro em Madrid. «O objetivo era elevar o nível de qualidade do outlet para que se instalassem lá mais marcas de prestígio. O que foi conseguido com sucesso no de Vila do Conde. As lojas estão mais bem tratadas e quase chegam a ser como lojas normais de centros comerciais e não como lojas de outlet. O da Corunha é parecido com este. E o princípio é o mesmo.»

Paulo Lobo gosta de morar no Porto e não trocava por nenhuma outra cidade. Até porque, diz, contribuiu para a mudança da cidade com os seus projetos. E qual o que mais o desafiou? «Nenhum em especial. O Buondi sim, porque era muito novinho quando o fiz. Mas são todos um desafio, há uns mais fáceis outros menos. Outros mais complicados. Mas não há nenhum especial.»

A maior parte dos projetos do designer estão no Porto. Mas também os tem em Lisboa, Espanha, Itália, Suíça e Polónia. São mais de 130. Muitos mais. Mas Paulo Lobo já parou de os contar há muito. Um dia há de fazê-lo, promete. Nos internacionais, destaca um em Pescara, Itália: o restaurante Thomas Café. E, em San Sebastian, uma loja pequena para o conhecido estilista Manuel Pertega, que desenhou o vestido de casamento da princesa Letícia, em Espanha.

Os projetos

O processo de trabalho no seu atelier é sempre o mesmo e tem tanto que ver com marketing como comdesign. «As pessoas vêm com uma ideia daquilo que querem abrir e as razões. Passam por um programa, para descobrir qual é o público alvo, e esperam que eu desenvolva qualquer coisa que lhes traga sucesso. E o sucesso delas é naturalmente o meu.» Ainda lhe mói um pouco o juízo o facto de fazer um projeto com um objetivo definido e, depois, os donos do espaço alterarem tudo. «Agora não me incomoda tanto. Ou pelo menos tento passar por cima disso.»

No seu gabinete, realiza em média dez projetos por ano. E não tem dúvidas. A parte mais desgastante desta profissão «é negociar com os clientes». Não pelas negociações de preços, até porque Paulo Lobo diz ter um certo gozo em fazer projetos low-cost, sendo isso «um desafio». Mas pelos diferentes tipos de clientes que encontra pela frente. «Há os que sabem criticar e os que não sabem. Tentamos levar as coisas até ao fim mas, às vezes, envolve muita gente e é um processo complicado.» Para fazer design de interiores de casas diz ser preciso ainda uma dose extra de paciência. «É preciso que a base seja boa e o cliente também. As casas são diferentes. Não têm um produto que pretende ser vencedor. Têm uma família, com filhos, avó, sogra, e as pessoas envolvem-se muito… E eu não tenho muita paciência porque o processo torna-se mais lento.»

Por ter conseguido uma carreira a pulso, descobrindo de forma autodidata o seu caminho no design, fica irritado com alguns jovens designers que lhe aparecem pela frente e, diz, não sabem sequer as bases. «A interpretação entre forma e função é a chave do design e de qualquer produto de design. Acho incrível como existem pessoas, que são formadas nesta área, e não sabem o que isso é. Há gente nova com qualidade e outra que não sabe o que é o design. Estes últimos apenas imitam bem. Mas há um dia em que imitar não basta.»

Estilo minimalista?

A Paulo Lobo foram-lhe atribuídos vários estilos ao longo da carreira. Um deles o minimalista. «É verdade que tenho algumas coisas minimalistas de antigamente. As influências de hoje são muito baseadas na utilização de técnicas artesanais. É uma coisa que me interessa, não sei se é pela idade e pelas tendências internacionais. Hoje em dia querem-se coisas mais humanas. Quando se toca na peça sabe-se que houve alguém que fez aquilo à mão, a personalidade e a técnica de um artesão estão lá.»

Já teve várias lojas com objetos desenhados pelo designer e também por designers internacionais. Na altura eram novidade. «Era um apetite ter essas coisas cá na altura, porque não havia em mais lado nenhum.» Atualmente, Paulo Lobo tem a Lobo Taste e a Hats & CATS, no Porto. Na Lobo Taste, os produtos têm «técnicas puras do artesanato. Podemos ter peças de alguém que trabalha cestaria e que possa aparecer com a mesma técnica num biombo ou num painel. É algo que me interessa, mas também é uma tendência internacional».

Vai às feiras internacionais de design e lê as revistas todas da área. «Absolutamente tudo. Desde as revistas de moda, à música que teve sempre influência em mim. Gosto da world music. Gosto de apreciar a fusão de música tradicional com outros estilos. Depende do estado de espírito, mas gosto de muita música diferente.» Quando era miúdo gostava muito dos Stones e gostava de ter aprendido a tocar piano. Agora, comprar discos é um dos seus prazeres secretos. Um sonho? «Gostava de ter a melhor aparelhagem do mundo.» Confessa que não lê muito, gosta pouco de ir ao cinema «porque já só existem os de shopping» e o cheiro a pipocas incomoda-o. É tudo, como no design, uma questão de sensibilidade.

Nova loja na Ribeira

Acabou de abrir a nova Paulo Lobo no Porto. O novo espaço vai chamar-se Hats & CATS e fica na Ribeira do Porto, na Rua do Infante Dom Henrique. O nome tem um significado próprio. Hats – porque os chapéus, diversos e de todo o mundo vão estar em destaque – & CATS – significa Cosmopolitan Articles Tradition and Simplicity.

Enquanto a outra loja do designer, a Lobo Taste, junto à Bolsa, no Porto, apresenta produtos portugueses, esta tem como objetivo comercializar principalmente produtos de todo o mundo. «Desde acessórios de moda até peças de decoração, desde o Sri Lanka até Nova Iorque, por exemplo, dando destaque a muitos produtos artesanais», explicou Paulo Lobo à Notícias Magazine.

 

Entrevista de 2012

Havai, Austrália… e Nazaré?

por Susana Ribeiro. Fotografia de Henriques da Cunha/GI

E de repente a Nazaré está nas bocas do mundo. Toda a gente fala da onda de quase trinta metros que Garrett McNamara surfou a 1 de Novembro. Qualquer coisa como um prédio de dez andares. O vídeo já correu mundo e os surfistas de grandes ondas estão entusiasmados com esta «nova» meca do surf em Portugal.

Mas as ondas não surgiram agora. Nada disso. As ondas grandes sempre fizeram parte da paisagem da Nazaré, assim como as condições únicas da Praia do Norte, influenciada pelo chamado canhão da Nazaré [ver caixa]. Muito provavelmente, haverá quem diga que já surfou ondas desse tamanho naquele local. A única diferença é que esta ficou filmada, documentada, e faz parte de um projecto de três anos que a Câmara Municipal da Nazaré está a levar muito a sério e que pretende que seja uma preciosa ajuda na promoção turística da região a nível mundial.

A ideia de que seria na Praia do Norte que apanharia a maior onda da sua vida foi sempre uma certeza para Garrett McNamara. Só não sabia quando. Este havaino de 44 anos é conhecido por ser um big wave rider – um surfista especialista em ondas grandes. Entre os seus locais de aventuras está o Alasca, com ondas produzidas pela queda de blocos de gelo dos glaciares. «Uma loucura que não voltava a repetir.»

A noção de quem enfrenta perigos sempre que se faz a uma destas ondas é notória. Mas o medo é algo que não lhe assiste. «Quando estou no mar não penso no medo.» Sobre a famosa onda de trinta metros diz que «a força era tanta que senti como se tijolos me estivessem a cair sobre as costas». Nas imagens que correram mundo, vê-se Garrett numa cavalgada frenética a descer a onda, depois quase desaparece no meio da espuma e de repente surge em pose relaxada. Esta é a sua especialidade. É um extreme waterman explorer e já recebeu vários prémios para quem desafia ondas grandes. Na corrida ao Billabong XXL Global Big Wave Awards 2012 – uma espécie de «óscares» do surf de ondas grandes – McNamara tem várias ondas a concurso para a categoria de Maior Onda, incluindo, claro, a que apanhou na Praia do Norte, na Nazaré, a 1 de Novembro. É a primeira vez que ondas portuguesas são referenciadas neste galardão.

Garrett é pessoa de vida simples. No seu dia-a-dia normal levanta-se às cinco da manhã: «Faço uma oração, leio, faço alongamentos e vou ver o mar.» O seu nome anda na boca do mundo, já deu entrevistas a vários meios de comunicação internacionais por causa da onda nazarena, da CNN aos media portugueses. Ainda assim, mantém o estilo descontraído: chinelos, T-shirt branca, calças de fato de treino e boné.

Colocar a Nazaré no mapa

Pedro Pisco, da Nazaré Qualifica, a empresa municipal criada em 2007 que tem gerido os projectos de exploração do canhão da Nazaré, quase nem acredita na projecção que a localidade está a ter. As ondas surfadas por McNamara vieram dar uma ajuda preciosa.

Tudo começou, em 2005, com uma fotografia às ondas da Praia do Norte que Dino Casimiro, também funcionário da autarquia, tirou e decidiu enviar a alguns surfistas de ondas grandes, entre os quais Garrett. O havaiano ficou logo interessado, mas desconhecia a existência das ondas da Nazaré: «Era o segredo mais bem guardado do mundo. Ouvia falar de outras ondas noutros países da Europa, mas não de Portugal e nunca tinha ouvido falar da Nazaré.»

Note-se que o surf na Praia do Norte não é para todos. Para surfar neste spot, Garrett pratica o tow in, ou seja, é levado de mota de água até à onda, para lá da rebentação. A mota é também um apoio muito importante quando se desafia a morte sempre que apanha uma onda. «A profundidade da água é boa, mas se cair, a areia do fundo é como cimento», lembra.

«Enviámos aquela fotografia com alguma inocência, só para mostrar», conta Pedro Pisco. «Mas vimos que era um potencial que nos passava completamente ao lado. Foi então que decidimos que queríamos abrir este mercado, não só ao surf, mas ao turismo em geral.» Formalizaram depois o convite para Garrett vir à Nazaré. A primeira acção começou no ano passado, para ver se havia condições de explorar este fenómeno natural da Praia do Norte que pretende projectar a Nazaré mundialmente entre os praticantes de desportos de água. Agora há um segundo trabalho em curso e, no próximo ano, a Praia do Norte vai receber uma prova internacional, a North Canyon Tow In Trials.

De câmara em punho

Desde o início do projecto que existiu a preocupação de documentar toda a acção. Já no ano passado se tinham realizado filmagens que resultaram num primeiro documentário, com o apoio da Zon, que tem as imagens disponíveis em video on demand. São 52 minutos de filme sobre a Nazaré e a exploração das ondas grandes da Praia do Norte por Garrett McNamara. No total do projecto, existirão três documentários. E se o primeiro deles, exibido no mês passado em algumas salas de Lisboa e do Porto, foi feito sem pensar que teria tanta projecção, agora, as contas são outras. Este ano, a equipa cresceu e acompanha em permanência os passos e as surfadas de McNamara em Portugal.

O segundo documentário contará com o trabalho de Jorge Leal, Wilson Ribeiro, Ivo Correia e Gustavo Neves, um brasileiro de 25 anos que há dois se dedica a esta empreitada. Quando chegou a Portugal, um amigo da Zon tinha um vídeo em alta definição com as imagens realizadas na expedição de Garrett McNamara no ano passado. «Olhei e achei muito interessante. Em Janeiro comecei a editar e em Agosto, concluí o documentário.»

Envolvido desde o início neste projecto de exploração com Garrett McNamara está Jorge Leal, fotógrafo que captou as imagens do ano passado. Os vídeos – a par da fotografia – pretendiam dar a conhecer «o tow in feito nas condições extremas que a Praia do Norte proporciona. São situações únicas, como se viu com a onda de trinta metros», adianta.

Como alguns membros da equipa de filmagem também surfam, é inevitável perguntar-lhes se, quando vêm as ondas, não têm vontade de largar tudo e correr para a água com as pranchas. A resposta é rápida e unânime: não! «É preciso ser muito experiente neste tipo de ondas e no tow in, como o Garrett. É ter preparação física e uma experiência forte para lidar com a força desta onda. Podemos perder a vida ali», atiram todos para a conversa.

«Quando estávamos a filmar e a fotografar vimos logo que aquela era uma onda especial. Aliás, apareceram dois sets muito especiais, com ondas entre os oito e os dez metros, mais ou menos constantes, mas aquela surpreendeu todos e o Garrett apanhou a maior. Vimos logo que era uma onda para concorrer às maiores do mundo», conta Jorge Leal, recordando a onda de 1 de Novembro que viu através da lente da sua câmara. «O potencial da Praia do Norte para os big wave riders é enorme. O CJ Macias, que está a aprender com o Garrett, já conseguiu apanhar uma onda que está no quadro da Billabong XXL. E é a primeira vez que vem para aqui!», salienta o fotógrafo.

A importância deste trabalho é salientada também pelo documentarista Gustavo Neves: «Geralmente os filmes de surf são sobre viagens, este é mais profundo, onde também focamos a região e o canhão da Nazaré. Estamos aqui todos os dias a acompanhar o projecto e mostrámos nas imagens todo o tipo de mar, desde ondas de um metro a mais de vinte metros e agora a onda gigante.»

«O próprio Garrett faz pesquisa à procura de ondas de cem pés [trinta metros], uma espécie de Santo Graal dos big wave riders», conta Pedro Pisco. No dia em que apanhou a onda – que na realidade tinha noventa pés [27 metros] – McNamara não imaginava que seria o seu dia de sorte. Estava dentro de água, sem saber o que o esperava, «muito relaxado». Ao contar a experiência de surfar a onda gigante, diz que não pensou em nada de concreto: «Só depois percebi que era uma onda especial. O vento era tão forte dentro da onda que não ouvia nada. É uma onda muito misteriosa e muito mágica. Nunca sabemos o que vai aparecer lá fora.»

O projecto de exploração das potencialidades da Nazaré e da Praia do Norte foi delineado para três anos, mas «com este sucesso já estamos a pensar muito mais à frente», conta Pedro Pisco. O investimento é de privados, por isso, a Câmara Municipal contou sempre com apoios, e também de «muitos nazarenos que acreditam e, agora, estão a ter o retorno». No âmbito do projecto, está ainda prevista a construção de um Centro de Alto Rendimento de Surf, que inclui treino de resgate e salvamento aquático, um projecto de educação ambiental e um Museu de Ondas Grandes. Tudo com a chancela de Garrett McNamara.

O canhão da Nazaré

O segredo das ondas gigantes na Praia do Norte vem do fenómeno conhecido como canhão da Nazaré e que proporciona a criação de ondas com um tamanho fora do normal. De acordo com o Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa – que mantém um estudo permanente no local com bóias de monitorização – «a proximidade do canhão da Nazaré à Praia do Norte promove uma situação de empolamento com intensidade significativa». Condições que, com o vento e a direcção de ondulação certos, produzem as «ondas perfeitas» de que Garrett McNamara fala.

Este é um acidente geomorfológico raro, tido como o maior da Europa e um dos maiores do mundo. O «canhão da Nazaré é uma falha na placa continental com cerca de 170 quilómetros de comprimento e que atinge os cinco quilómetros de profundidade. Está localizado em frente à Praia do Norte e canaliza a ondulação do oceano Atlântico para esta praia praticamente sem obstáculos, proporcionando a criação de ondas com um tamanho fora do normal, por comparação com a restante costa portuguesa.

No Porto de bicicleta

Publicado na Tentações, edição de 1 de Setembro da revista Sábado.

Passar fronteiras como modo de vida – 21 de Agosto de 2011

Para muitos não passa de um sonho. Outros insistem, e acabam por conseguir fazer das viagens a sua vida. São relatos de quem não consegue viver o dia-a-dia sem pensar na próxima viagem.

 

O brunch está na moda



por Susana Ribeiro. Fotografia de Rui Oliveira/Global Imagens

Em Lisboa, o hábito está instalado há muito, mas no Porto é algo recente. O brunch – que mistura o breakfast (pequeno-almoço) com o lunch (almoço) – está na moda para quem gosta de dormir até mais tarde ou para quem prefere misturar os prazeres de duas refeições numa só… mas mais prolongada.

VIP Lounge

Assim é o brunch do VIP Lounge do Porto Palácio Congress Hotel & Spa: para ser degustado com calma. No VIP Lounge, o brunch é servido só no primeiro sábado de cada mês, sendo ainda uma novidade. Abre às 11h30, mas só a partir do meio-dia começam a chegar as primeiras pessoas ao bar panorâmico, situado no último piso do hotel. Até às três e meia da tarde é possível degustar uma grande variedade de iguarias. Todas idealizadas pelo chef Hélio Loureiro.

Para além de pastelaria diversa (donuts, croissants, pastéis de nata, muffins), tem também cereais, iogurtes, marmelada, compotas, pão variado, mini-sanduíches, panquecas, presunto fatiado, bolo de carne, presunto, salmão e queijos. O serviço é de buffet e pode beber o que desejar. E, sempre que se levantar para reabastecer o prato, pode apreciar as vistas, para a cidade do Porto, foz do Douro e mar. Continue nas saladas, salgados variados e pratos quentes. Para além de um caldo, pode provar os ovos mexidos, bacon, salsichas frescas, tomate grelhado, cogumelos salteados, arroz de açafrão, batata salteada, crepes vegetarianos e fiambre assado com mel, soja e cravinho. Todos os meses as ementas variam.

Nas sobremesas também existe uma grande diversidade, de gelatinas a mousses de chocolate e maracujá, crepes, rabanadas, suspiros, frutos laminados e maçãs assadas. Nas bebidas, tem disponíveis sumos naturais, champanhe, Virgin Mary com aipo, vinho branco Fragulho e vinho tinto Curva, da região do Douro. Termine com café ou chá.

Shis

No restaurante Shis, na foz do Douro, o brunch está disponível todos os dias e proporciona as melhores vistas para o Atlântico através da esplanada da praia do Ourigo. O brunch do Shis apresenta três opções: Big Breakfast, Light Breakfast e Soft Breakfast. Todos os dias, das 10 às 16 horas, é possível juntar o pequeno-almoço e o almoço numa só refeição. O Big Breakfast inclui sumo de laranja natural, café com leite ou chá ou chocolate quente, torradinhas ou croissant, ovos mexidos ou tosta de salmão fumado, salada de fruta e bolo de laranja. O Light Breakfast tem sumo de laranja natural, iogurte com muesli, torradinhas ou croissants, café com leite ou chá ou chocolate quente e salada de fruta. Já o Soft Breakfast oferece sumo de laranja natural, café com leite ou chá ou chocolate quente, torradinhas ou croissant.

Fim de Boca

Desde que abriu na Baixa do Porto, o Fim de Boca serve brunch, e o sucesso foi tão grande que existe agora um brunch-buffet, no segundo sábado de cada mês, em que os cozinheiros preparam ao vivo algumas das iguarias. Esta versão fica por 12,50 euros, com tudo incluído. Nos outros sábados, o brunch tem uma ementa diferente todas as semanas. Algumas das sugestões passam por sumos naturais, brioches com doce de goiaba e queijo fresco de cabra, sanduíches com batata pála-pála, panna cotta de baunilha com coulis de morango e hortelã e bebida quente. Às vezes há ovos à Benedict, cogumelos recheados com salada e cheeseburger de angus com batata-palito e tiramisú, para terminar. No Fim de Boca, a ementa é diferente todos os sábados.

Taberna do Bonjardim

«Para ser brunch tem de haver pelo menos um prato quente», diz Marta Hespanhol da Taberna do Bonjardim, que serve brunch todos os sábados.

Na Baixa do Porto, a Taberna do Bonjardim é um espaço com paredes de pedra, sendo uma delas forrada de madeiras representativas de produtores de vinho. Todos os sábados convida para o brunch (entre as 12h00 e as 16h00), que é servido sobretudo no primeiro andar. Em sistema de buffet, há ovos mexidos, salsichas e bacon, pão, panquecas, croissants, cereais, leite, saladas, sopa, fruta e bolo caseiro, que vai variando todas as semanas. «Nunca é igual, até porque as pessoas costumam vir semanas seguidas e não querem comer sempre o mesmo», adianta Marta Hespanhol.

Tavi

Na Foz, os brunches da Tavi são servidos por marcação, com três dias de antecedência, e só para grupos de oito ou mais pessoas. Por isso, mais vale planear com os amigos ou a família esta junção do pequeno-almoço com o almoço, que pode ser tomada na esplanada da Tavi com vista para o mar. O serviço inclui iguarias como omeletas, sumos naturais, cereais, bolos, fruta e a pastelaria reconhecida da Tavi.

Rota do Chá

A Rota do Chá serve brunch ao sábado e ao domingo e sempre, claro, acompanhado por chá. À mesa vem parar o sumo de laranja, chá ou café, um salgado (quiche, folhado ou pastel), tosta (mista ou de queijo) e uma dose de scones. O menu está disponível a partir das 11h00. Apesar de estar no centro da cidade, o jardim da Rota do Chá proporciona momentos muito relaxantes.

1000 Paladares

A 1000 Paladares, no Parque da Cidade do Porto, serve brunch a partir do mês de Maio, ao sábado e domingo, a partir das 11 horas. Quando o calor aperta e convida para passeios no Parque da Cidade, a proposta para repor energias é o brunch da 1000 Paladares. A refeição inclui omeleta de fiambre ou queijo, sumo natural de laranja ou limonada ou batido de groselha, scones com compota e/ou manteiga, fruta da época e bolo (noz, laranja ou chocolate), que vai variando. Há uma segunda opção, que substitui os scones por uma salada com queijo fresco e abacaxi. O brunch da 1000 Paladares funciona de Maio a Setembro.

AlFornoCaffé

Na Foz, muito perto da praia, o AlFornoCaffé serve brunch aos sábados, domingos e feriados, das 10h30 às 13h00. O serviço é buffet e inclui pão, croissants, fruta, compotas, sumos naturais, chá e café (meia-de-leite, etc.). Também tem ovos mexidos ou bacon à inglesa.

bbGourmet

Nos dois espaços bbGourmet (Maiorca e Bull&Bear), os sábados, domingos e feriados, entre as 11 e as 16 horas, são dias de brunch. A refeição inclui serviço à mesa com salada de fruta, croissant e tosta, manteiga, compota e seis opções: pastéis de massa tenra, ovos com espargos ou camarão, quiche do dia, sanduíches de salmão com natas ácidas e endro e sanduíches de frango com molho tártaro. A acompanhar uma destas opções, pode escolher salada de alface ou batatas fritas. Aqui, as bebidas são pagas à parte.

Café Progresso

No Café Progresso, o brunch assume «várias combinações, da mais simples à mais complexa», diz Afonso Fernandes. Responsável por um dos cafés mais antigos da cidade do Porto, com 111 anos, Afonso explica que o brunch «inclui combinações de sumo de laranja natural, café de cevada, chá, croissant, torrada em pão de forma ou pão bijou, compotas, manteiga, cereais e ovos mexidos». O brunch é servido todos os dias, de segunda a sábado, das sete da manhã às sete da tarde. Os nomes para as três variedades de brunch são sugestivos – Despertar, Amanhecer, Bom Dia. Apesar de serem pequenos-almoços mais substanciais e tardios, temos de despertar, amanhecer e desejar um bom dia», conclui Afonso Fernandes.

Contactos

Porto Palácio VIP Lounge

Avenida da Boavista, 1269, Porto

Tel.: 226086636

Preço por pessoa: 27,50 euros

Shis

Praia do Ourigo, Foz do Douro, Porto

Tel.: 226189593

Preço por pessoa: 6 a 18 euros

Fim de Boca

Rua da Firmeza, 476, Porto

Tel.: 222013030

Preço por pessoa: 9 euros; brunch-buffet mensal: 12 euros

Taberna do Bonjardim

Rua do Bonjardim, 450, Porto

Tel.: 222013560

Preço por pessoa: 15 euros (tudo incluído)

Tavi

Rua Senhora da Luz, 363

Tel.: 226180152

Preço por pessoa: 6 euros

Rota do Chá

Rua Miguel Bombarda, 457, Porto

914394027 / 917615547

Preço por pessoa: 12 euros

1000 Paladares

Parque da Cidade do Porto, Núcleo Rural

Tel.: 226168335

Preço por pessoa: 11 a 12 euros

AlForno Caffé

Rua de Gondarém, 487, Porto

Tel.: 226182832 / 226182832

Preço por pessoa: 9,80 euros

bbGourmet Maiorca

Rua António Cardoso, 301, Porto

Tel.: 226092003

Preço por pessoa: 6 euros (sem bebidas)

bbGourmetBull&Bear

Avenida da Boavista, 3431, Porto

Tel.: 226107669

Preço por pessoa: 6 euros (sem bebidas)

Café Progresso

Rua Actor João Guedes, 5, Porto

Tel.: 223322647

Preço por pessoa: 2,10 a 5 euros

Publicado a 22 de Maio de 2011 na Notícias Magazine.

Pés peregrinos

Por SUSANA RIBEIRO. FOTOGRAFIA JOSÉ MOTA/GLOBAL IMAGENS

Todos os anos milhares de peregrinos rumam a Fátima por altura do 13 de Maio. Todos pela devoção que os une a Nossa Senhora. Fazem quilómetros, muitas vezes em sofrimento por causa de problemas nos pés. Pelo caminho encontram os postos de podologia que atenuam a dor e confortam o espírito.

São 150 os podologistas voluntários da CESPU (Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário) – docentes e alunos – que dão apoio gratuito aos peregrinos que se deslocam a Fátima a pé. Os romeiros que partem do Norte fazem aproximadamente quarenta quilómetros diários, num total de mais de duzentos, para chegar ao santuário. Durante o caminho, os postos de podologistas vão aliviando os maiores males dos peregrinos a pé: bolhas, hematomas, mialgias e contracturas (dores musculares), alterações dérmicas, entorses, fasceítes plantares, edemas, alergias, problemas ungueais, insolações, vasculites e úlceras. Nomes conhecidos de muitos, que por vezes já trazem na bagagem problemas nos pés e nunca os trataram devidamente.

A podologia é uma área que tem vindo a crescer, mas só recentemente a Assembleia da República aprovou um projecto de resolução que reconhece a profissão de podologista. São cerca de mil os profissionais em actividade em Portugal, e a regulamentação desta nova profissão de saúde pode permitir, por exemplo, que os podologistas passem a ter uma carreira no Serviço Nacional de Saúde, o que até agora não acontecia. A falta de enquadramento fiscal e o uso indevido do título profissional por técnicos não qualificados são outros problemas que os podologista querem ver resolvidos.

Os problemas dos pés

A podologia é uma disciplina da área da saúde que estuda, previne, diagnostica e trata as alterações dos pés e as suas repercussões no corpo humano. Sendo o pé a nossa base, qualquer alteração nos pés pode afectar o normal funcionamento do corpo humano.

Os problemas dos pés são variados. Um estudo do Instituto Politécnico de Saúde do Norte (IPSN), da CESPU, que envolveu cerca de 1700 crianças, concluiu que 34 por cento apresentava doenças nos pés, sendo as mais frequentes pé plano, pé valgo, hiperidrose e onicocriptoses e verrugas plantares. Um dos problemas mais graves tratados no âmbito da podologia é o pé diabético, principal causa de amputação não traumática dos membros inferiores e o maior responsável pelo internamento hospitalar dos diabéticos. Estudos científicos mostram que existe uma redução de sessenta por cento de amputações quando existe acompanhamento podológico.

Recostada na cadeira, em consulta na CESPU de Vila Nova de Famalicão, Maria Rosa Pereira, 55 anos, olha para os seus pés, que lhe têm trazido maiores dores e desassossego nos últimos anos. Sempre teve calos e muitas dores, mas desde há quatro anos a sua vida mudou. Passou a ter consultas com podologistas, e de dois em dois meses vai fazer o tratamento que lhe melhorou a qualidade de vida. «Usei muito saltos altos e não se deve», diz Maria Rosa. Mas o podologista Manuel Portela faz questão de frisar que os problemas nunca são de um só factor, «pode ser falta de uma vitamina, sapatos que se usam, maior facilidade para encravar unhas, entre muitos outros». Adianta que «há também muita gente que não sabe cortar bem as unhas e os calos são apenas uma defesa do pé e surgem nos locais onde existe maior pressão».

«Deveríamos ter mais cuidado com os pés», diz, em tom de lamento, Maria Rosa. Manuel Portela considera que «já começa a haver maior informação e que a prevenção também começa a instalar-se ao nível da podologia infantil».

Cuidados redobrados em peregrinação

Ali ao lado, ainda na CESPU, no gabinete do podologista Miguel Oliveira, estão duas peregrinas que costumam fazer a caminhada até Fátima para o 13 de Maio. Eulália Ferreira é de Vila do Conde, tem 52 anos. Patrícia Cardoso tem 34 anos e é de Famalicão. Ambas têm consultas periódicas na CESPU e antes de partirem para a peregrinação têm cuidados redobrados.

Eulália faz a caminhada por etapas e demora quatro dias. O marido vai buscá-la e levá-la ao mesmo ponto para recomeçar. «Apesar de algumas dores nos pés, sou das que estão mais frescas no dia seguinte, porque descansei em casa e assim consigo dar maior apoio aos outros, muitas vezes dar a mão», diz Eulália, com um ar sorridente. Faz a peregrinação há oito anos, sem promessa implícita, e diz que, «enquanto puder, vou». Patrícia faz o caminho para Fátima há seis anos, primeiro pela promessa pelo avô, agora vai apenas porque «é algo muito enriquecedor».

Mesmo com tantos quilómetros nos pés, Patrícia garante que nunca teve bolhas. Mas numa das vezes descobriu – num dos postos mantidos por podologistas da CESPU – que as dores que tinha vinham de um desnivelamento na perna que «nunca tinha sentido». «Colocaram-me logo algo na sapatilha para compensar e continuei a caminhada», refere a peregrina. «Quando regressei, vim a uma consulta e fizeram-me uns suportes plantares, para resolver esse desnível que iria ter influência na coluna», diz Patrícia Cardoso.

O apoio nos postos de peregrinação está aberto e é gratuito para qualquer pessoa. Desde 1997 que a CESPU faz esta acção e tem tido uma presença habitual junto dos peregrinos. Patrícia sublinha que «são tão peregrinos como nós. Não estão só a tratar, também ouvem os nossos desabafos».

«Nós minimizamos a dor de quem faz a peregrinação, mas o esforço mantém-se», refere o podologista Miguel Oliveira.

«Antes de 1994 quase não se ouvia falar de podologia em Portugal», diz o especialista. «Os pés estão tapados a maior parte do ano e as pessoas não lhes dão muito valor», adianta. «Mas é preciso haver consciência de que muita gente caminha sobre problemas», diz Miguel Oliveira.

«Pelo menos uma vez por ano as pessoas deviam vir ao podologista, mas há quem tenha de vir mais vezes, devido às suas necessidades», ressalva.

Eulália Ferreira tem problemas crónicos, alguns que esperam muito provavelmente uma cirurgia. Por isso, vem umas quatro vezes por ano e traz com ela a família, amigos e ainda hóspedes do lar que tem na Maia. «O podologista não pode ser visto como uma evolução do calista, temos uma formação superior e agora temos especialização em diversas áreas. Na podologia os tratamentos são muito personalizados, ninguém tem tratamentos iguais, porque os problemas são sempre diferentes», conclui Miguel Oliveira.

Podologia em Portugal

No ano passado, ao receber os peregrinos, os voluntários da CESPU praticaram cerca de três mil actos podológicos.

O curso de Podologia existe desde 1994, e a CESPU é a única instituição de ensino superior a leccionar este curso. O actual director do Departamento de Podologia da CESPU é Domingos Gomes, antigo médico do Futebol Clube do Porto. Em 2009, este departamento criou o primeiro mestrado na Europa na área do pé e do tornozelo. Os mestrados em Podiatria – considerada uma especialidade médica nos EUA – permitem aos podologistas obter um grau de especialização em quatro áreas: podiatria clínica, podiatria geriátrica, podiatria infantil e podiatria do exercício físico e do desporto.

Cuidados gerais a ter com os pés

_Higiene diária, lavar os pés todos os dias com sabonete de pH neutro.

_Secar rmuito bem os pés, especialmente entre os dedos.

_Observar os pés diariamente, directamente ou através de um espelho.

_Hidratar a planta do pé com um creme específico para pés.

_Cortar as unhas de forma recta com instrumento desinfectado e de uso pessoal.

_Usar meias de fibras naturais (lã, algodão, seda).

_Usar calçado estável de material natural e respirável (pele, couro).

_O calçado deve ser adquirido ao final do dia (quando o pé já apresenta algum edema).

_Não realizar autotratamento.

_Consultar um podologista uma vez por ano e sempre que exista algum sinal ou sintoma.

Publicado a 8 de Maio de 2011, na Notícias Magazine.