O Michelin das pizas

Michelin das pizasSe sonha em comer a verdadeira piza napolitana e não pode viajar até Itália, tem de ir a Matosinhos. É lá que está o único espaço em Portugal com a certificação da «verdadeira piza napolitana». Em outubro, o restaurante Pulcinella e o pizzaiolo Antonio Mezzero vão representar Portugal no campeonato onde se escolhe a melhor piza da Europa.

Ainda não são oito da noite e a fila da pizaria Pulcinella, em Matosinhos, já vem até à rua. Aqui não há reserva de mesa e quem espera… espera. O objetivo vale a pena: provar as pizas tal como nasceram em Nápoles. Dentro do balcão, incansável a amassar pizas, está um maestro pizzaiolo veramente napoletano. É Antonio Mezzero, italiano de Nápoles, com 30 anos, a viver em Portugal desde 2008. Foi ele quem conseguiu a proeza de ter a sua pizaria Pulcinella inscrita na lista de locais que servem a verdadeira piza napolitana em todo o mundo. Ter essa certificação é, para os pizzaioli, tão importante como uma estrela Michelin para os chefs em todo o mundo.

Foi em maio deste ano que chegou o papel que atesta que a Pulcinella é casa que serve a piza seguindo a tradição napolitana. As regras explica-as o mestre: «O menu tem de ter as pizas mais antigas, a clássica marguerita e a marinara. Eram as que existiam no início, quando surgiram as pizas.» Está exposta, com destaque, a certificação do Pulcinella com vera pizza napoletana, assinada pela Associação da Verdadeira Piza Napolitana [ver caixa]. Está também exposta uma camisola do clube de futebol Nápoles com o número 437: o lugar de Pulcinella entre as pizarias certificadas no mundo. Mais de metade são em Itália. Mezzero está ainda na lista dos cinquenta melhores pizzaioli do mundo.

Não obstante tamanho orgulho, Mezzero quer inovar e, mais do que isso, quer dignificar o nome de Portugal nos campeonatos, europeu e mundial, entre pizzaioli de todo o mundo. É a sua forma de homenagear Portugal, o país onde conseguiu vingar num trabalho que faz desde criança.

Foi aos 12 anos que fez a primeira piza. Vivia na Alemanha, onde aliás cresceu até se mudar para o Porto, e o pai, dono de uma pizaria, precisou de ajuda na cozinha. «Estava com o meu irmão gémeo, na rua a jogar futebol, e eles chamou-nos porque tinha faltado um empregado – que depois vim a saber era de Campanhã! Então… ele chamou-nos e ensinou-nos como se fazia a massa e se trabalhava. Só explicou uma vez. Se errássemos ou brincássemos, apanhávamos logo um calduço. E foi assim que aprendi», recorda.

Uma semana depois, estava a fazer 280 pizas, ajudando o tal mestre português. Pode ter começado como obrigação, mas não é preciso falar muito tempo com Mezzero para perceber que depressa se tornou uma paixão o que faz. «Estou a realizar o meu sonho. Estou agora focado nos campeonatos porque quero colocar o nome de Portugal nos píncaros, entre os maiores pizzaioli mundiais. Se ganhar vai ser uma forma de agradecer ao país que me acolheu e me permitiu realizar o meu sonho», diz. Vai participar no Campeonato Europeu, nos dias 21 e 22 deste mês, em Milão, onde vai ser escolhida a melhor piza da Europa.

Enquanto sonha com um lugar entre os três primeiros, o mestre diz que vai apresentar uma piza original, mas não pode revelar o seu segredo, apenas adiantando que será «clássica gourmet». O campeonato mundial vai acontecer em 2014, em Parma, e tem seiscentos participantes.

Neste último, os prémios são tão diversos como: o pizzaiolo mais organizado, a piza mais larga, o mais acrobático, entre outros. Mezzero é um alquimista da piza napolitana. O processo de fazer a massa é artesanal, e é só ele que a faz. «Ninguém mais mexe na massa. Mas a piza napolitana não tem segredos: é farinha, água, fermentação… O segredo é a experiência. Tudo o que é bom demora tempo. A piza demora um minuto a fazer, mas para a massa demora horas a quebrar os ossos das mãos», explica, ainda com sotaque italiano.

Antonio Mezzero ficou mais conhecido na celebração dos 250 anos da Torre dos Clérigos (monumento do italiano Nicolau Nasoni), a 26 de maio deste ano, assinalados pela Associação dos Italianos em Portugal com uma piza de cinco metros, confecionada por este pizzaiolo.

Este italiano, que venera Maradona e tem uma paixão por motos italianas, especialmente pelas Ducati, quer continuar a destacar-se. «Gostava mesmo de ganhar nos campeonatos. Primeiro o europeu e depois o mundial. Ou pelo menos ficar nos primeiros lugares. Já viram o que era dizer que a melhor piza da Europa está em Matosinhos, Portugal? Era um orgulho. Um sonho.»

A VERDADEIRA PIZA

Corria o ano de 1982 quando, em Nápoles, Itália, foi criada a Associação da Verdadeira Piza Napolitana (em italiano, Associazione Verace Pizza Napoletana). «A única associação sem fins lucrativos que defende e promove a cultura da verdadeira piza napolitana no mundo.» A sua missão é promover a piza napolitana, fazendo respeitar as normas e caraterísticas, para que seja feita tal como manda a tradição.

Pode o leitor pensar que todas as pizas terão então distinções. Não. A piza napolitana é a única registada no mundo. Para conseguir a certificação é necessário muito trabalho e estudo. Antonio Mezzero teve de enviar vídeos de como fazia as suas pizas e tudo é analisado: se a loja tem alvará; se o espaço é só de pizas (não pode ter pastas e massas); se tem as pizas clássicas na ementa; como é o forno a lenha; como é feita a fermentação da massa; entre muitas outras caraterísticas.

Depois é analisada a candidatura in loco pela associação AVPN e só depois surge o resultado da avaliação. Mezzero é agora responsável por avaliar outras pizarias, em Portugal, que queiram ter «a verdadeira piza napolitana». Em breve, na Pulcinella vai ter workshops para ensinar a fazer pizas e até podem contar com os ensinamentos de Girogio Giove, que é o campeão do mundo de piza acrobática.

 

Texto: Susana Ribeiro

Fotos: Artur Machado / Global Imagens

Publicado na Notícias Magazine de 13 de outubro de 2013

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Um português criativo (por Susana Ribeiro, em Los Angeles)

 

Todos os anos, desde 2007, a Chevrolet premeia a criatividade juvenil, com o Young Creative Chevrolet (YCC). Este ano, um português esteve no meio dos vencedores com um terceiro lugar na área de vídeo: Paulo Lima, de 20 anos, de Vila Nova de Famalicão.

 

Os olhos cor de amêndoa da menina do vídeo captam a atenção de todos. A criança apanha um ralhete da mãe e, quando é mandada de castigo para o quarto, decide pintar numa parede um desenho que a faz sonhar. O desenho, com o planeta Terra e uma nave espacial, que leva uma menina para fora de órbita, é a sua forma de ir além da sua imaginação. No final, surge a frase Open the window of your life (abra a janela da sua vida).

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Este vídeo, de Paulo Lima, que alcançou o terceiro lugar do Young Creative Chevrolet, foi o único, entre os três primeiros, que não teve uma única imagem de um carro. O que não impediu de ser premiado. Para o júri do concurso, o vídeo do jovem de Vila Nova de Famalicão apresentou uma «ótima composição e narração de histórias – emoções são capturadas de uma forma interessante».

O Young Creative Chevrolet (YCC) é um concurso de arte e design da marca de carros para estudantes de artes na Europa. A ligação da marca com o cinema vem de longe e está intimamente ligada à ideia da América no cinema (ver caixa). A Chevrolet, que comemorou no ano passado cem anos, é a maior marca da General Motors mundial, com vendas

anuais de mais de quatro milhões de veículos em mais de 140 países. É a quarta maior marca automóvel mundial em termos de vendas e tem tentado combinar design e inovação, daí a existência destes prémios. Este concurso começou em 2007. Todos os anos, jovens artistas são desafiados a trazerem novas ideias para o mercado e a criarem dentro das suas áreas, como é o caso de moda, fotografia, vídeo e artes visuais.

Este ano, estiveram representados no concurso 24 países, 280 escolas da Europa e contaram-se mais de mil participações. Na categoria de Paulo Lima, em vídeo, foram registados mais de vinte concorrentes.

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A protagonista do vídeo de Paulo é Anita. Tem 10 anos e é prima de Paulo Lima. A mulher que aparece no vídeo é Conceição, a mãe do vencedor. E certamente que ambas nunca tinham imaginado fazer parte de um vídeo que iria passar nos ecrãs de Hollywood.

Paulo Lima está a tirar o curso de Cinema da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, e a fazer Erasmus na Faculdade de Blanquerna, da Universidade de Ramon Llull, em Barcelona.

O cinema está agora no seu dia a dia, mas nem sempre foi assim. Quando era miúdo queria ser arquiteto. «Foram influências do meu pai que é arquiteto e quando somos crianças queremos ser como os nossos pais», diz Paulo Lima.

«Durante alguns anos, estive orientado para a pintura e fiz artes visuais e foi isso que estudei no secundário. Mas tive um professor que me deu a volta.» E foi mesmo uma grande volta, porque Paulo nunca tinha gostado muito de cinema. «Não estava muito habituado a ir ao cinema e era algo a que não ligava muito.» Mas Fernando Silvestre, encenador do grupo de teatro onde Paulo participava, conseguiu mostrar-lhe um outro lado da sétima arte. «Ele gostava muito de cinema e principalmente do cinema americano. Mostrava-me filmes do Clint Eastwood e chamava a atenção para o que gostava nos filmes e comecei a prestar mais atenção e a gostar de cinema, mas ainda é algo muito recente e a minha bagagem cinematográfica é muito pequena. Mas de facto foi ele quem me impulsionou.»

Durante algum tempo fez teatro, numa companhia amadora de Vila Nova de Famalicão, o Andaime. Eram trabalhos de animação na rua, que Paulo gostava de fazer e onde se sentia à vontade, mesmo diante de tanta gente desconhecida. Faziam homenagens a escritores, por exemplo, como Mia Couto, e procuravam a interação com o público, em locais do interior como Arcos de Valdevez e Lamego. A primeira vez que ouviu recitar João Negreiros ficou apaixonado pela poesia e gostava de dizê-la. Tanto, que participou num concurso de dizer poesia e ganhou o terceiro lugar.

Tudo isso faz parte da sua vivência e tudo isso, sem saber bem como, o levou ao curso de Cinema na Universidade da Beira Interior, na Covilhã. O diretor do curso, o professor Luís Nogueira, tem por hábito enviar para os alunos e-mails de eventos, atividades, iniciativas e concursos ligados à área. Um desses e-mails era sobre o YCC e Paulo, que nunca tinha ligado a esses avisos do professor, decidiu participar. Obteve o terceiro lugar de vídeo e, no total, Paulo Lima ganhou 1200 euros pelo prémio nacional e mais dois mil pelo terceiro prémio a nível europeu.

A entrega dos prémios do YCC teve lugar em outubro, em Hollywood, Los Angeles. Paulo esteve lá. Durante três dias os vencedores conheceram a cidade e os famosos estúdios de cinema, como a Universal e a Paramount. Tiveram workshops com designers da General Motors e participaram num debate com atores, produtores e realizadores de filmes conhecidos, como Jon Landau (produtor de Avatar), Rob Cohen (realizador de The Fast and The Furious) e Ian Bryce (produtor de Transformers) que falaram dos desafios colocados à indústria do cinema nos dias de hoje.

Todos esses temas são caros a Paulo, que os sentiu, em ponto pequeno, na produção do vídeo que ganhou o prémio da Chevrolet. Andou a pensar no que haveria de fazer e decidiu meter as mãos ao trabalho. As ideias começaram a surgir em volta do conceito de «estar fechado num lugar, mas libertares-te de alguma forma», recorda, que é o que, no fundo, um carro nos faz.

«Pensei logo em alguém que se queria libertar, mesmo estando “preso” dentro de quatro paredes». Foi aí que se lembrou de fazer o vídeo com uma criança. «Porque é a altura de sermos rebeldes, e eu era uma criança rebelde e fazia muitas asneiras, e então foi daí que surgiram as ideias. É também quando tens vontade de mudar o mundo e não paras quieto», sublinha o premiado. «Na inocência da idade, há uma criança que só faz asneiras e que se quer libertar daquelas quatro paredes e cria um desenho para se libertar», reforça acrescentando a ideia de que «se calhar foi para o quarto de castigo e foi fazer uma coisa ainda pior do que a que tinha feito para a mãe lhe ralhar».

Convidou a prima Anita, de 10 anos, para fazer de protagonista e pôs a sua própria mãe, a fazer de mãe da criança. Essa proximidade às atrizes deu-lhe mais trabalho do que poderia imaginar. «Elas não são profissionais, é claro, por isso não estão preparadas para não se rirem. Essa era a parte mais complicada. Tive de as filmar em separado, mesmo quando parece que estão uma em frente à outra, porque senão não conseguia fazer o trabalho.» A ideia foi crescendo e Paulo Lima fez a planificação, o storyboard e em duas tardes filmou tudo com a sua máquina fotográfica Canon 550D. A mãe a ralhar à criança; a criança a resignar-se ao castigo de ir para o quarto; e a fazer um desenho do tamanho da parede do quarto. Esse desenho, que mostra o planeta Terra e uma menina a ser levada numa nave espacial para o espaço, foi também feito por Paulo durante uma noite. O premiado diz que essa foi a parte mais fácil. O pior foi quando teve de escolher as melhores imagens e os melhores planos. Demorou duas semanas a editar as filmagens e a fazê-las bater certo com a música original, que é também da autoria do próprio Paulo, composta toda em computador. É aliás no campo da música para filmes que está o sonho de Paulo Lima. «Gostava de compor e fazer bandas sonoras, como dobragens e o que se ouve e o que não se ouve nos filmes.» Não tem escola de música mas teve outras aulas que o ajudaram. «Já tive escola de som e algumas cadeiras de música e vou tendo alguma experiência do que vou fazendo. A música é o que dá emoção e ritmo às sequências e era mesmo isso que gostava de fazer», diz Paulo, convicto.

Já em edições anteriores foram registados vencedores portugueses. Em 2008, o 3.º lugar em fotografia e o 2.º em artes visuais; em 2010, o 1.º lugar em artes visuais; e, em 2011, o 3.º lugar em artes visuais. Foi, por isso, com Paulo Lima que Portugal conseguiu o primeiro prémio na área de vídeo.

Para ver o vídeo de Paulo Lima pode ir até www.youngcreativechevrolet.eu.

Havai, Austrália… e Nazaré?

por Susana Ribeiro. Fotografia de Henriques da Cunha/GI

E de repente a Nazaré está nas bocas do mundo. Toda a gente fala da onda de quase trinta metros que Garrett McNamara surfou a 1 de Novembro. Qualquer coisa como um prédio de dez andares. O vídeo já correu mundo e os surfistas de grandes ondas estão entusiasmados com esta «nova» meca do surf em Portugal.

Mas as ondas não surgiram agora. Nada disso. As ondas grandes sempre fizeram parte da paisagem da Nazaré, assim como as condições únicas da Praia do Norte, influenciada pelo chamado canhão da Nazaré [ver caixa]. Muito provavelmente, haverá quem diga que já surfou ondas desse tamanho naquele local. A única diferença é que esta ficou filmada, documentada, e faz parte de um projecto de três anos que a Câmara Municipal da Nazaré está a levar muito a sério e que pretende que seja uma preciosa ajuda na promoção turística da região a nível mundial.

A ideia de que seria na Praia do Norte que apanharia a maior onda da sua vida foi sempre uma certeza para Garrett McNamara. Só não sabia quando. Este havaino de 44 anos é conhecido por ser um big wave rider – um surfista especialista em ondas grandes. Entre os seus locais de aventuras está o Alasca, com ondas produzidas pela queda de blocos de gelo dos glaciares. «Uma loucura que não voltava a repetir.»

A noção de quem enfrenta perigos sempre que se faz a uma destas ondas é notória. Mas o medo é algo que não lhe assiste. «Quando estou no mar não penso no medo.» Sobre a famosa onda de trinta metros diz que «a força era tanta que senti como se tijolos me estivessem a cair sobre as costas». Nas imagens que correram mundo, vê-se Garrett numa cavalgada frenética a descer a onda, depois quase desaparece no meio da espuma e de repente surge em pose relaxada. Esta é a sua especialidade. É um extreme waterman explorer e já recebeu vários prémios para quem desafia ondas grandes. Na corrida ao Billabong XXL Global Big Wave Awards 2012 – uma espécie de «óscares» do surf de ondas grandes – McNamara tem várias ondas a concurso para a categoria de Maior Onda, incluindo, claro, a que apanhou na Praia do Norte, na Nazaré, a 1 de Novembro. É a primeira vez que ondas portuguesas são referenciadas neste galardão.

Garrett é pessoa de vida simples. No seu dia-a-dia normal levanta-se às cinco da manhã: «Faço uma oração, leio, faço alongamentos e vou ver o mar.» O seu nome anda na boca do mundo, já deu entrevistas a vários meios de comunicação internacionais por causa da onda nazarena, da CNN aos media portugueses. Ainda assim, mantém o estilo descontraído: chinelos, T-shirt branca, calças de fato de treino e boné.

Colocar a Nazaré no mapa

Pedro Pisco, da Nazaré Qualifica, a empresa municipal criada em 2007 que tem gerido os projectos de exploração do canhão da Nazaré, quase nem acredita na projecção que a localidade está a ter. As ondas surfadas por McNamara vieram dar uma ajuda preciosa.

Tudo começou, em 2005, com uma fotografia às ondas da Praia do Norte que Dino Casimiro, também funcionário da autarquia, tirou e decidiu enviar a alguns surfistas de ondas grandes, entre os quais Garrett. O havaiano ficou logo interessado, mas desconhecia a existência das ondas da Nazaré: «Era o segredo mais bem guardado do mundo. Ouvia falar de outras ondas noutros países da Europa, mas não de Portugal e nunca tinha ouvido falar da Nazaré.»

Note-se que o surf na Praia do Norte não é para todos. Para surfar neste spot, Garrett pratica o tow in, ou seja, é levado de mota de água até à onda, para lá da rebentação. A mota é também um apoio muito importante quando se desafia a morte sempre que apanha uma onda. «A profundidade da água é boa, mas se cair, a areia do fundo é como cimento», lembra.

«Enviámos aquela fotografia com alguma inocência, só para mostrar», conta Pedro Pisco. «Mas vimos que era um potencial que nos passava completamente ao lado. Foi então que decidimos que queríamos abrir este mercado, não só ao surf, mas ao turismo em geral.» Formalizaram depois o convite para Garrett vir à Nazaré. A primeira acção começou no ano passado, para ver se havia condições de explorar este fenómeno natural da Praia do Norte que pretende projectar a Nazaré mundialmente entre os praticantes de desportos de água. Agora há um segundo trabalho em curso e, no próximo ano, a Praia do Norte vai receber uma prova internacional, a North Canyon Tow In Trials.

De câmara em punho

Desde o início do projecto que existiu a preocupação de documentar toda a acção. Já no ano passado se tinham realizado filmagens que resultaram num primeiro documentário, com o apoio da Zon, que tem as imagens disponíveis em video on demand. São 52 minutos de filme sobre a Nazaré e a exploração das ondas grandes da Praia do Norte por Garrett McNamara. No total do projecto, existirão três documentários. E se o primeiro deles, exibido no mês passado em algumas salas de Lisboa e do Porto, foi feito sem pensar que teria tanta projecção, agora, as contas são outras. Este ano, a equipa cresceu e acompanha em permanência os passos e as surfadas de McNamara em Portugal.

O segundo documentário contará com o trabalho de Jorge Leal, Wilson Ribeiro, Ivo Correia e Gustavo Neves, um brasileiro de 25 anos que há dois se dedica a esta empreitada. Quando chegou a Portugal, um amigo da Zon tinha um vídeo em alta definição com as imagens realizadas na expedição de Garrett McNamara no ano passado. «Olhei e achei muito interessante. Em Janeiro comecei a editar e em Agosto, concluí o documentário.»

Envolvido desde o início neste projecto de exploração com Garrett McNamara está Jorge Leal, fotógrafo que captou as imagens do ano passado. Os vídeos – a par da fotografia – pretendiam dar a conhecer «o tow in feito nas condições extremas que a Praia do Norte proporciona. São situações únicas, como se viu com a onda de trinta metros», adianta.

Como alguns membros da equipa de filmagem também surfam, é inevitável perguntar-lhes se, quando vêm as ondas, não têm vontade de largar tudo e correr para a água com as pranchas. A resposta é rápida e unânime: não! «É preciso ser muito experiente neste tipo de ondas e no tow in, como o Garrett. É ter preparação física e uma experiência forte para lidar com a força desta onda. Podemos perder a vida ali», atiram todos para a conversa.

«Quando estávamos a filmar e a fotografar vimos logo que aquela era uma onda especial. Aliás, apareceram dois sets muito especiais, com ondas entre os oito e os dez metros, mais ou menos constantes, mas aquela surpreendeu todos e o Garrett apanhou a maior. Vimos logo que era uma onda para concorrer às maiores do mundo», conta Jorge Leal, recordando a onda de 1 de Novembro que viu através da lente da sua câmara. «O potencial da Praia do Norte para os big wave riders é enorme. O CJ Macias, que está a aprender com o Garrett, já conseguiu apanhar uma onda que está no quadro da Billabong XXL. E é a primeira vez que vem para aqui!», salienta o fotógrafo.

A importância deste trabalho é salientada também pelo documentarista Gustavo Neves: «Geralmente os filmes de surf são sobre viagens, este é mais profundo, onde também focamos a região e o canhão da Nazaré. Estamos aqui todos os dias a acompanhar o projecto e mostrámos nas imagens todo o tipo de mar, desde ondas de um metro a mais de vinte metros e agora a onda gigante.»

«O próprio Garrett faz pesquisa à procura de ondas de cem pés [trinta metros], uma espécie de Santo Graal dos big wave riders», conta Pedro Pisco. No dia em que apanhou a onda – que na realidade tinha noventa pés [27 metros] – McNamara não imaginava que seria o seu dia de sorte. Estava dentro de água, sem saber o que o esperava, «muito relaxado». Ao contar a experiência de surfar a onda gigante, diz que não pensou em nada de concreto: «Só depois percebi que era uma onda especial. O vento era tão forte dentro da onda que não ouvia nada. É uma onda muito misteriosa e muito mágica. Nunca sabemos o que vai aparecer lá fora.»

O projecto de exploração das potencialidades da Nazaré e da Praia do Norte foi delineado para três anos, mas «com este sucesso já estamos a pensar muito mais à frente», conta Pedro Pisco. O investimento é de privados, por isso, a Câmara Municipal contou sempre com apoios, e também de «muitos nazarenos que acreditam e, agora, estão a ter o retorno». No âmbito do projecto, está ainda prevista a construção de um Centro de Alto Rendimento de Surf, que inclui treino de resgate e salvamento aquático, um projecto de educação ambiental e um Museu de Ondas Grandes. Tudo com a chancela de Garrett McNamara.

O canhão da Nazaré

O segredo das ondas gigantes na Praia do Norte vem do fenómeno conhecido como canhão da Nazaré e que proporciona a criação de ondas com um tamanho fora do normal. De acordo com o Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa – que mantém um estudo permanente no local com bóias de monitorização – «a proximidade do canhão da Nazaré à Praia do Norte promove uma situação de empolamento com intensidade significativa». Condições que, com o vento e a direcção de ondulação certos, produzem as «ondas perfeitas» de que Garrett McNamara fala.

Este é um acidente geomorfológico raro, tido como o maior da Europa e um dos maiores do mundo. O «canhão da Nazaré é uma falha na placa continental com cerca de 170 quilómetros de comprimento e que atinge os cinco quilómetros de profundidade. Está localizado em frente à Praia do Norte e canaliza a ondulação do oceano Atlântico para esta praia praticamente sem obstáculos, proporcionando a criação de ondas com um tamanho fora do normal, por comparação com a restante costa portuguesa.

No Porto de bicicleta

Publicado na Tentações, edição de 1 de Setembro da revista Sábado.

Passar fronteiras como modo de vida – 21 de Agosto de 2011

Para muitos não passa de um sonho. Outros insistem, e acabam por conseguir fazer das viagens a sua vida. São relatos de quem não consegue viver o dia-a-dia sem pensar na próxima viagem.

 

Pés peregrinos

Por SUSANA RIBEIRO. FOTOGRAFIA JOSÉ MOTA/GLOBAL IMAGENS

Todos os anos milhares de peregrinos rumam a Fátima por altura do 13 de Maio. Todos pela devoção que os une a Nossa Senhora. Fazem quilómetros, muitas vezes em sofrimento por causa de problemas nos pés. Pelo caminho encontram os postos de podologia que atenuam a dor e confortam o espírito.

São 150 os podologistas voluntários da CESPU (Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário) – docentes e alunos – que dão apoio gratuito aos peregrinos que se deslocam a Fátima a pé. Os romeiros que partem do Norte fazem aproximadamente quarenta quilómetros diários, num total de mais de duzentos, para chegar ao santuário. Durante o caminho, os postos de podologistas vão aliviando os maiores males dos peregrinos a pé: bolhas, hematomas, mialgias e contracturas (dores musculares), alterações dérmicas, entorses, fasceítes plantares, edemas, alergias, problemas ungueais, insolações, vasculites e úlceras. Nomes conhecidos de muitos, que por vezes já trazem na bagagem problemas nos pés e nunca os trataram devidamente.

A podologia é uma área que tem vindo a crescer, mas só recentemente a Assembleia da República aprovou um projecto de resolução que reconhece a profissão de podologista. São cerca de mil os profissionais em actividade em Portugal, e a regulamentação desta nova profissão de saúde pode permitir, por exemplo, que os podologistas passem a ter uma carreira no Serviço Nacional de Saúde, o que até agora não acontecia. A falta de enquadramento fiscal e o uso indevido do título profissional por técnicos não qualificados são outros problemas que os podologista querem ver resolvidos.

Os problemas dos pés

A podologia é uma disciplina da área da saúde que estuda, previne, diagnostica e trata as alterações dos pés e as suas repercussões no corpo humano. Sendo o pé a nossa base, qualquer alteração nos pés pode afectar o normal funcionamento do corpo humano.

Os problemas dos pés são variados. Um estudo do Instituto Politécnico de Saúde do Norte (IPSN), da CESPU, que envolveu cerca de 1700 crianças, concluiu que 34 por cento apresentava doenças nos pés, sendo as mais frequentes pé plano, pé valgo, hiperidrose e onicocriptoses e verrugas plantares. Um dos problemas mais graves tratados no âmbito da podologia é o pé diabético, principal causa de amputação não traumática dos membros inferiores e o maior responsável pelo internamento hospitalar dos diabéticos. Estudos científicos mostram que existe uma redução de sessenta por cento de amputações quando existe acompanhamento podológico.

Recostada na cadeira, em consulta na CESPU de Vila Nova de Famalicão, Maria Rosa Pereira, 55 anos, olha para os seus pés, que lhe têm trazido maiores dores e desassossego nos últimos anos. Sempre teve calos e muitas dores, mas desde há quatro anos a sua vida mudou. Passou a ter consultas com podologistas, e de dois em dois meses vai fazer o tratamento que lhe melhorou a qualidade de vida. «Usei muito saltos altos e não se deve», diz Maria Rosa. Mas o podologista Manuel Portela faz questão de frisar que os problemas nunca são de um só factor, «pode ser falta de uma vitamina, sapatos que se usam, maior facilidade para encravar unhas, entre muitos outros». Adianta que «há também muita gente que não sabe cortar bem as unhas e os calos são apenas uma defesa do pé e surgem nos locais onde existe maior pressão».

«Deveríamos ter mais cuidado com os pés», diz, em tom de lamento, Maria Rosa. Manuel Portela considera que «já começa a haver maior informação e que a prevenção também começa a instalar-se ao nível da podologia infantil».

Cuidados redobrados em peregrinação

Ali ao lado, ainda na CESPU, no gabinete do podologista Miguel Oliveira, estão duas peregrinas que costumam fazer a caminhada até Fátima para o 13 de Maio. Eulália Ferreira é de Vila do Conde, tem 52 anos. Patrícia Cardoso tem 34 anos e é de Famalicão. Ambas têm consultas periódicas na CESPU e antes de partirem para a peregrinação têm cuidados redobrados.

Eulália faz a caminhada por etapas e demora quatro dias. O marido vai buscá-la e levá-la ao mesmo ponto para recomeçar. «Apesar de algumas dores nos pés, sou das que estão mais frescas no dia seguinte, porque descansei em casa e assim consigo dar maior apoio aos outros, muitas vezes dar a mão», diz Eulália, com um ar sorridente. Faz a peregrinação há oito anos, sem promessa implícita, e diz que, «enquanto puder, vou». Patrícia faz o caminho para Fátima há seis anos, primeiro pela promessa pelo avô, agora vai apenas porque «é algo muito enriquecedor».

Mesmo com tantos quilómetros nos pés, Patrícia garante que nunca teve bolhas. Mas numa das vezes descobriu – num dos postos mantidos por podologistas da CESPU – que as dores que tinha vinham de um desnivelamento na perna que «nunca tinha sentido». «Colocaram-me logo algo na sapatilha para compensar e continuei a caminhada», refere a peregrina. «Quando regressei, vim a uma consulta e fizeram-me uns suportes plantares, para resolver esse desnível que iria ter influência na coluna», diz Patrícia Cardoso.

O apoio nos postos de peregrinação está aberto e é gratuito para qualquer pessoa. Desde 1997 que a CESPU faz esta acção e tem tido uma presença habitual junto dos peregrinos. Patrícia sublinha que «são tão peregrinos como nós. Não estão só a tratar, também ouvem os nossos desabafos».

«Nós minimizamos a dor de quem faz a peregrinação, mas o esforço mantém-se», refere o podologista Miguel Oliveira.

«Antes de 1994 quase não se ouvia falar de podologia em Portugal», diz o especialista. «Os pés estão tapados a maior parte do ano e as pessoas não lhes dão muito valor», adianta. «Mas é preciso haver consciência de que muita gente caminha sobre problemas», diz Miguel Oliveira.

«Pelo menos uma vez por ano as pessoas deviam vir ao podologista, mas há quem tenha de vir mais vezes, devido às suas necessidades», ressalva.

Eulália Ferreira tem problemas crónicos, alguns que esperam muito provavelmente uma cirurgia. Por isso, vem umas quatro vezes por ano e traz com ela a família, amigos e ainda hóspedes do lar que tem na Maia. «O podologista não pode ser visto como uma evolução do calista, temos uma formação superior e agora temos especialização em diversas áreas. Na podologia os tratamentos são muito personalizados, ninguém tem tratamentos iguais, porque os problemas são sempre diferentes», conclui Miguel Oliveira.

Podologia em Portugal

No ano passado, ao receber os peregrinos, os voluntários da CESPU praticaram cerca de três mil actos podológicos.

O curso de Podologia existe desde 1994, e a CESPU é a única instituição de ensino superior a leccionar este curso. O actual director do Departamento de Podologia da CESPU é Domingos Gomes, antigo médico do Futebol Clube do Porto. Em 2009, este departamento criou o primeiro mestrado na Europa na área do pé e do tornozelo. Os mestrados em Podiatria – considerada uma especialidade médica nos EUA – permitem aos podologistas obter um grau de especialização em quatro áreas: podiatria clínica, podiatria geriátrica, podiatria infantil e podiatria do exercício físico e do desporto.

Cuidados gerais a ter com os pés

_Higiene diária, lavar os pés todos os dias com sabonete de pH neutro.

_Secar rmuito bem os pés, especialmente entre os dedos.

_Observar os pés diariamente, directamente ou através de um espelho.

_Hidratar a planta do pé com um creme específico para pés.

_Cortar as unhas de forma recta com instrumento desinfectado e de uso pessoal.

_Usar meias de fibras naturais (lã, algodão, seda).

_Usar calçado estável de material natural e respirável (pele, couro).

_O calçado deve ser adquirido ao final do dia (quando o pé já apresenta algum edema).

_Não realizar autotratamento.

_Consultar um podologista uma vez por ano e sempre que exista algum sinal ou sintoma.

Publicado a 8 de Maio de 2011, na Notícias Magazine.