A criadora de cores (por Susana Ribeiro)

Sabia que, quase todos os dias, são criadas novas cores? É essa a profissão de Céline de Azevedo: faz cores. Algumas chegam a ser tendências de moda.

Alguma vez reparou em todas as cores que o rodeiam no dia a dia? A designer de cor Céline de Azevedo repara. A inspiração vem de qualquer objeto. Desde uma folha de uma árvore a um papel simples. É assim o dia a dia de um designer de cor. Atento ao que o rodeia, às tendências, e a criar novas cores.

Céline de Azevedo é, desde 2004, responsável pelo departamento de Design de Cor do grupo de tintas CIN. Mas é apaixonada pelo tema há muito tempo. No que toca à moda, por exemplo, a designer está por dentro do trabalho das grandes agências internacionais do mercado têxtil, que definem as cores da moda que depois são seguidas pelos criadores e pela indústria. « No caso da CIN, costumamos fazer o contrário. A lgumas cores até acabam por coincidir, como os tons pastel deste ano, por exemplo. Mas o método de funcionamento é diferente do mundo da moda, até porque pintar uma casa ou um objeto não muda a cada estação. Quando pintamos, queremos que dure mais tempo e é nisso que também pensamos quando criamos uma cor. »

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Foto de Adelino Meireles

 

«O lançamento das tendências nas tintas é anual, porque o ritmo da decoração da casa não é tão rápido como o da moda. » As tendências para as tintas CIN são criadas com um ano de antecedência. Ou seja, nos laboratórios da empresa, na Maia, Céline já começou a pensar no catálogo de 2014. Já começou a analisar as tendências, a fazer workshops e formações com profissionais da mesma área e a visitar feiras de decoração. «Chamo-lhe a primeira fase de observação, em que vou recolhendo material de trabalho. » Mas convém não descurar a componente pessoal. «Vou recolhendo coisas que me inspiram: revistas de estilo de vida e decoração e também estou atenta à evolução da sociedade e ao contexto atual que se vive. Temos de ver como vamos viver na nossa casa no futuro. E isso também é relativo aos tempos que vivemos. » As cores vão refletir isso tudo. Durante cerca de quatro meses, a designer de cor faz essa recolha. Depois vem a fase de atelier , onde compila todas as ideias por tipo de cor e vai definindo caminhos.

Cada cor criada é única. «As cores contam histórias até pelo nome. E eu vou criando as minhas histórias. Cada coleção conta uma história e em cada cor há também uma história. » Como a história da «cor do ano». Em 2013 é «o amarelo soleil .» «Traz luz, brilho, bom humor, alegria e energia. Também está associado ao positivismo, à criatividade. Tudo o que precisámos para este ano. »

«As cores transmitem sensações. Quando fazemos cores para espaços, damos dicas sobre como tirar maior partido delas. Por exemplo, numa cozinha, o laranja é uma cor que dizem abrir o apetite, porque está ligada à cor da vitamina C e é uma cor positiva e alegre. Nos quartos de criança ou escritórios, os azuis são positivos porque, em termos fisiológicos, são relaxantes, baixam a pulsação e ajudam a ter mais concentração. »

A cor é um guia do quotidiano. Na seleção de resíduos – verde para vidro, azul para papéis, amarelo para embalagens -, nos semáforos e em tudo o resto. As marcas sabem disso e também estudam o impacte da cor que escolhem para logótipos. Quem fez a imagem do Facebook terá pensado que o azul era uma cor universal? Céline tem a certeza que sim. «Existem estudos que dizem que é a cor preferida por mais gente em todo o mundo. É uma cor pacífica – olhe os capacetes azuis da ONU – a cor do céu e do mar… Mas há também as marcas arrojadas com vermelho, como a Coca-Cola, ou multicolores – que significa criatividade e imaginação, que arrisca, é alegre e positivo – como o Google e eBay. A cor está sempre presente na nossa vida. Até na medicina, quando o médico vê que um doente está amarelo é porque está com algum problema. E a cor da fruta e dos legumes diz-nos se estão bons para comer ou não. Esquecemo-nos muitas vezes de que, para o nosso aspirador e o nosso secador de cabelo, há um designer de cor que pensa na cor que vai ter. E fazem a cor de raiz. Na área da cosmética, esquecemo-nos também de que as cores dos cremes e das embalagens são muito importantes para definir o cliente. »

O dia a dia de Céline de Azevedo é mesmo diferente. De manhã, mal abre os olhos, as cores saltam à sua frente e transportam-se para a veia criativa da designer . Está sempre a processar todas as cores que lhe aparecem à frente. É capaz de estar a olhar para uma peça e adivinhar qual é a cor da CIN que mais se assemelha.

Céline nasceu em França há 32 anos. Filha de pais portugueses, só está em Portugal há oito anos, por isso, ainda há muitas palavras a sair em francês quando se entusiasma a falar do trabalho. «O mundo da cor para mim é apaixonante. Gosto muito disto, de criar uma cor de raiz » , diz entusiasmada a designer que tem como cor preferida o verde. «O verde é natureza e é uma grande inspiração. Posso passar horas a digitalizar folhas de árvores para encontrar um verde específico que quero desenvolver. » Mas a ideia de criação de uma nova cor pode surgir a partir de um pequeno pedaço de tecido ou até de um simples papel. «Uma vez vi um folheto de uma peça de teatro e reparei que tinha um pormenor com um verde fantástico. Guardei e levei para o laboratório para criarmos um verde. »

Quando era criança passava a vida a pintar e a desenhar. Por isso, quando acabou o ensino secundário, já sabia que a sua área era a das artes. Mas qual? Quando teve mesmo de decidir viu que os seus trabalhostinham todos um ponto comum: a cor. «Trabalhar na cor permitia-me trabalhar em todas as áreas. Tinha encontrado uma vocação. »

Licenciou-se em Artes Aplicadas e Artes Plásticas e a especialização em Design de Cor, na Universidade de Toulouse. O seu primeiro trabalho foi, em 2003, no Atelier 3D Couleur, em Paris. É um atelier de design de cor, de Jean-Philippe Lenclos, que é tido como um pioneiro na área de design de cor. «Foi um dos primeiros a fazer definições de cores para os carros, para os telemóveis e a trabalhar para grandes indústrias e a definir a construção de gamas de cores.»

Trabalhou em várias áreas como designer de cor: teve experiência nas áreas de moda, indústria, arquitetura e trabalhou em projetos de urbanismo, onde definia paletas de cores para as cidades. «Em Portugal começa a ser definido, mas em França, Espanha, Itália, Inglaterra, já há uma tradição de usar as mesmas cores que identifiquem e tornem homogéneas as pinturas das casas.»

Uma das suas maiores paixões é a cor no património edificado. Foi por isso que, quando chegou a altura de fazer um trabalho de mestrado escolheu como tema «As Cores do Centro Histórico do Porto». Sempre viveu em França mas queria ligar-se a Portugal. «E sempre quis ter algo no meu trabalho sobre as raízes do país dos meus pais. »

«Gosto de explorar o mundo, de perceber as cores ligadas às cidades, a sua simbologia e a história da cor. Em termos de cor há uma riqueza no património português e o Porto tem uma riqueza cromática enorme que queria mostrar e divulgar através do meu estudo. » « O Porto, no centro histórico, é muito marcado pelos materiais como o granito e os azulejos. Quando falamos de cor através de tintas, há muitos ocres, amarelos, muitos rosas, vermelhos e apontamentos de verde e azul, que muitas vezes encontrámos em azulejos. »

Foi quando estava no Porto, à procura de material sobre cor para o seu mestrado, que encontrou um livro que tinha uma referência à CIN. «Não conhecia a empresa e, quando fui procurar na internet, identifiquei-me logo com o projeto da marca.» Chegou a estar um mês na CIN, porque pediu ajuda para o mestrado e para o estudo das cores da cidade do Porto mas, quando acabou, regressou a França. Uns meses depois, a empresa de tintas convidou-a para ser designer de cor. É lá que trabalha há oito anos. No seu dia a dia, cria novas cores – já lançou cerca de quinhentas – , produz catálogos com as tendências, constrói coleções e faz formações de cor. Com o apoio de toda a equipa dos laboratórios da CIN, são feitas novas cores e nuances todos os anos e lançadas as suas próprias tendências.

Um português criativo (por Susana Ribeiro, em Los Angeles)

 

Todos os anos, desde 2007, a Chevrolet premeia a criatividade juvenil, com o Young Creative Chevrolet (YCC). Este ano, um português esteve no meio dos vencedores com um terceiro lugar na área de vídeo: Paulo Lima, de 20 anos, de Vila Nova de Famalicão.

 

Os olhos cor de amêndoa da menina do vídeo captam a atenção de todos. A criança apanha um ralhete da mãe e, quando é mandada de castigo para o quarto, decide pintar numa parede um desenho que a faz sonhar. O desenho, com o planeta Terra e uma nave espacial, que leva uma menina para fora de órbita, é a sua forma de ir além da sua imaginação. No final, surge a frase Open the window of your life (abra a janela da sua vida).

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Este vídeo, de Paulo Lima, que alcançou o terceiro lugar do Young Creative Chevrolet, foi o único, entre os três primeiros, que não teve uma única imagem de um carro. O que não impediu de ser premiado. Para o júri do concurso, o vídeo do jovem de Vila Nova de Famalicão apresentou uma «ótima composição e narração de histórias – emoções são capturadas de uma forma interessante».

O Young Creative Chevrolet (YCC) é um concurso de arte e design da marca de carros para estudantes de artes na Europa. A ligação da marca com o cinema vem de longe e está intimamente ligada à ideia da América no cinema (ver caixa). A Chevrolet, que comemorou no ano passado cem anos, é a maior marca da General Motors mundial, com vendas

anuais de mais de quatro milhões de veículos em mais de 140 países. É a quarta maior marca automóvel mundial em termos de vendas e tem tentado combinar design e inovação, daí a existência destes prémios. Este concurso começou em 2007. Todos os anos, jovens artistas são desafiados a trazerem novas ideias para o mercado e a criarem dentro das suas áreas, como é o caso de moda, fotografia, vídeo e artes visuais.

Este ano, estiveram representados no concurso 24 países, 280 escolas da Europa e contaram-se mais de mil participações. Na categoria de Paulo Lima, em vídeo, foram registados mais de vinte concorrentes.

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A protagonista do vídeo de Paulo é Anita. Tem 10 anos e é prima de Paulo Lima. A mulher que aparece no vídeo é Conceição, a mãe do vencedor. E certamente que ambas nunca tinham imaginado fazer parte de um vídeo que iria passar nos ecrãs de Hollywood.

Paulo Lima está a tirar o curso de Cinema da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, e a fazer Erasmus na Faculdade de Blanquerna, da Universidade de Ramon Llull, em Barcelona.

O cinema está agora no seu dia a dia, mas nem sempre foi assim. Quando era miúdo queria ser arquiteto. «Foram influências do meu pai que é arquiteto e quando somos crianças queremos ser como os nossos pais», diz Paulo Lima.

«Durante alguns anos, estive orientado para a pintura e fiz artes visuais e foi isso que estudei no secundário. Mas tive um professor que me deu a volta.» E foi mesmo uma grande volta, porque Paulo nunca tinha gostado muito de cinema. «Não estava muito habituado a ir ao cinema e era algo a que não ligava muito.» Mas Fernando Silvestre, encenador do grupo de teatro onde Paulo participava, conseguiu mostrar-lhe um outro lado da sétima arte. «Ele gostava muito de cinema e principalmente do cinema americano. Mostrava-me filmes do Clint Eastwood e chamava a atenção para o que gostava nos filmes e comecei a prestar mais atenção e a gostar de cinema, mas ainda é algo muito recente e a minha bagagem cinematográfica é muito pequena. Mas de facto foi ele quem me impulsionou.»

Durante algum tempo fez teatro, numa companhia amadora de Vila Nova de Famalicão, o Andaime. Eram trabalhos de animação na rua, que Paulo gostava de fazer e onde se sentia à vontade, mesmo diante de tanta gente desconhecida. Faziam homenagens a escritores, por exemplo, como Mia Couto, e procuravam a interação com o público, em locais do interior como Arcos de Valdevez e Lamego. A primeira vez que ouviu recitar João Negreiros ficou apaixonado pela poesia e gostava de dizê-la. Tanto, que participou num concurso de dizer poesia e ganhou o terceiro lugar.

Tudo isso faz parte da sua vivência e tudo isso, sem saber bem como, o levou ao curso de Cinema na Universidade da Beira Interior, na Covilhã. O diretor do curso, o professor Luís Nogueira, tem por hábito enviar para os alunos e-mails de eventos, atividades, iniciativas e concursos ligados à área. Um desses e-mails era sobre o YCC e Paulo, que nunca tinha ligado a esses avisos do professor, decidiu participar. Obteve o terceiro lugar de vídeo e, no total, Paulo Lima ganhou 1200 euros pelo prémio nacional e mais dois mil pelo terceiro prémio a nível europeu.

A entrega dos prémios do YCC teve lugar em outubro, em Hollywood, Los Angeles. Paulo esteve lá. Durante três dias os vencedores conheceram a cidade e os famosos estúdios de cinema, como a Universal e a Paramount. Tiveram workshops com designers da General Motors e participaram num debate com atores, produtores e realizadores de filmes conhecidos, como Jon Landau (produtor de Avatar), Rob Cohen (realizador de The Fast and The Furious) e Ian Bryce (produtor de Transformers) que falaram dos desafios colocados à indústria do cinema nos dias de hoje.

Todos esses temas são caros a Paulo, que os sentiu, em ponto pequeno, na produção do vídeo que ganhou o prémio da Chevrolet. Andou a pensar no que haveria de fazer e decidiu meter as mãos ao trabalho. As ideias começaram a surgir em volta do conceito de «estar fechado num lugar, mas libertares-te de alguma forma», recorda, que é o que, no fundo, um carro nos faz.

«Pensei logo em alguém que se queria libertar, mesmo estando “preso” dentro de quatro paredes». Foi aí que se lembrou de fazer o vídeo com uma criança. «Porque é a altura de sermos rebeldes, e eu era uma criança rebelde e fazia muitas asneiras, e então foi daí que surgiram as ideias. É também quando tens vontade de mudar o mundo e não paras quieto», sublinha o premiado. «Na inocência da idade, há uma criança que só faz asneiras e que se quer libertar daquelas quatro paredes e cria um desenho para se libertar», reforça acrescentando a ideia de que «se calhar foi para o quarto de castigo e foi fazer uma coisa ainda pior do que a que tinha feito para a mãe lhe ralhar».

Convidou a prima Anita, de 10 anos, para fazer de protagonista e pôs a sua própria mãe, a fazer de mãe da criança. Essa proximidade às atrizes deu-lhe mais trabalho do que poderia imaginar. «Elas não são profissionais, é claro, por isso não estão preparadas para não se rirem. Essa era a parte mais complicada. Tive de as filmar em separado, mesmo quando parece que estão uma em frente à outra, porque senão não conseguia fazer o trabalho.» A ideia foi crescendo e Paulo Lima fez a planificação, o storyboard e em duas tardes filmou tudo com a sua máquina fotográfica Canon 550D. A mãe a ralhar à criança; a criança a resignar-se ao castigo de ir para o quarto; e a fazer um desenho do tamanho da parede do quarto. Esse desenho, que mostra o planeta Terra e uma menina a ser levada numa nave espacial para o espaço, foi também feito por Paulo durante uma noite. O premiado diz que essa foi a parte mais fácil. O pior foi quando teve de escolher as melhores imagens e os melhores planos. Demorou duas semanas a editar as filmagens e a fazê-las bater certo com a música original, que é também da autoria do próprio Paulo, composta toda em computador. É aliás no campo da música para filmes que está o sonho de Paulo Lima. «Gostava de compor e fazer bandas sonoras, como dobragens e o que se ouve e o que não se ouve nos filmes.» Não tem escola de música mas teve outras aulas que o ajudaram. «Já tive escola de som e algumas cadeiras de música e vou tendo alguma experiência do que vou fazendo. A música é o que dá emoção e ritmo às sequências e era mesmo isso que gostava de fazer», diz Paulo, convicto.

Já em edições anteriores foram registados vencedores portugueses. Em 2008, o 3.º lugar em fotografia e o 2.º em artes visuais; em 2010, o 1.º lugar em artes visuais; e, em 2011, o 3.º lugar em artes visuais. Foi, por isso, com Paulo Lima que Portugal conseguiu o primeiro prémio na área de vídeo.

Para ver o vídeo de Paulo Lima pode ir até www.youngcreativechevrolet.eu.

Na pele de Lobo (por Susana Ribeiro)

Podia ter sido médico ou informático, mas a paixão por coisas bonitas falou mais alto. As suas decorações e objetos estão em vários restaurantes, hotéis, lojas e casas de Portugal e do mundo. Eis Paulo Lobo, o mais famoso designer de interiores português, que começou de forma autodidata.

Nasceu há 51 anos em Lamego, mas fez do Porto a sua cidade. É casado e tem dois filhos – um rapaz de 19 anos e uma rapariga de 17. Fuma. Muito. Da lista de projetos em que o seu nome é referenciado já perdeu a conta aos números. Percebe-se. O rol é extenso e já passou os 130. A saber: o Bar Buondi, na Foz, o Cafeína, o Shis, o Bhule, o Twins, o Porto Palácio, e, em Lisboa, o recentemente reinaugurado Solar do Vinho do Porto, a nova loja do estilista Nuno Gama.

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Foto de Leonel de Castro

Muito recentemente assinou mais um projeto: Vila Vilarinha, no Porto, o seu primeiro empreendimento, moradias num condomínio fechado. E, para quem não lhe conhece a cara, mas apenas a obra, ele é o ruivo com ar entre o artista e o homem do campo que, recentemente, criou uma cadeira para Cavaco Silva. Sim, aquela em que a primeira-dama se sentou na apresentação oficial do projeto da Cadeira do Poder.

atelier de Paulo Lobo não desilude sobre a criatividade do maior designer de interiores em Portugal. Está num velho armazém de vinho do porto, na zona de Miragaia. Longe daqui, e num ambiente bem menos sofisticado, se iniciou a sua paixão pelo design, «por acaso» por volta dos 20 anos. Na altura, nem sabia bem que paixão era essa: «Tinha um gosto por coisas bonitas, mas nem sabia bem o que era aquilo. Foi apenas algo que surgiu em mim. Naquela altura tínhamos acesso a poucas coisas. Apenas ao que se via nas revistas e o que passava na televisão. Mas era muito pouco. Sempre gostei de coisas bonitas e a única coisa que conhecia na altura era precisamente a palavra “bonitas”. Era uma fase em que não se falava de design em Portugal.»

As coisas bonitas incluíam os tecidos que o pai, como é tradição na zona de Lamego, vendia nos armazéns de tecidos onde trabalhava. «Os tecidos apareciam lá em casa e eu gostava de ver as coleções e as texturas. Gostava das cores e de dar vida a cenários, por isso, era muito crítico em relação às montras dos armazéns que «eram muito cinzentas». Outra influência: da música clássica, através, também, do pai. «Claro que na altura não sabia, mas isso tudo influenciou-me depois.» Foi assim, sem saber ao certo como, que se foi envolvendo com o design. O gosto ia crescendo e também a curiosidade pelo que vinha lá de fora. «O Porto não está como estava há trinta anos. Infelizmente, não estava. Mas a mim sempre me despertaram interesse coisas que não existiam cá. E também não se viajava tanto na altura como se viaja hoje.»

Se não fosse essa paixão, hoje, Paulo Lobo poderia ser médico. «O meu pai queria que eu fosse para Medicina. Andei a frequentar um curso de espanhol para entrar na universidade em Santiago de Compostela. Mas comecei a faltar e não fui para lado nenhum. Depois, tive um amigo que me convidou para trabalhar com ele em informática, que era uma coisa nova na altura.» Não percebia nada de informática mas ia tentando. Teve uma formação na Apple, em Lisboa, e teve «a sorte» de ter o primeiro Macintosh em Portugal nas suas mãos. «Aquilo era tudo muito bonito. Mas também me fartei. Os computadores eram muito lentos e eu queria ser muito rápido.»

A indefinição do que queria fazer da vida resolver-se-ia, naturalmente, e por força das circunstâncias, como acontece muitas vezes. A namorada de Paulo Lobo – atual mulher e mãe dos dois filhos do designer – queria ter uma loja de roupa no Porto, mas não tinha orçamento para grandes mudanças ou decorações. Paulo acabou por, com um amigo, lhe produzir a loja. «Ela abriu e foi um sucesso. Muita gente que visitava o espaço perguntava quem tinha feito a produção e foi assim que tudo começou.»

Apareceram alguns convites, mas Paulo Lobo não queria voltar a trabalhar por conta de outrem. Por isso, em 1985, abriu uma loja de mobiliário, no Parque Itália, no Porto. «Vendia muito bem» e seria o seu cartão de visita. Quem a descobria queria imediatamente saber quem tinha sido o autor do design. Os convites surgiram. Nomeadamente o de António Coelho «uma referência da moda na altura», que trabalhava com o estilista Manuel Alves. «Ele gostou muito do meu trabalho e convidou-me para fazer uma loja na Foz que se chamava Cúmplice.»

Esta foi a rampa de lançamento da carreira de Paulo Lobo no design de interiores e a fama chegou quando, em 1989, fez o Buondi Café, na Foz. «Na altura era muito novo, a empresa que me tinha convidado era muito sólida.» Tinha 29 anos. O projeto foi um sucesso e «ultrapassou tudo o que estava previsto. Se se tivesse mantido aberto, ainda estaria atual». A partir daí, «deixou de ser uma brincadeira». Paulo começou a conjugar a palavra design, algo «de que ninguém falava em Portugal e que existia lá fora».

O interesse foi crescente e começou a ver como se trabalhava, junto dos operários e artesãos. «Vivi muito com essa gente toda, que me ensinou muita coisa. Primeiro a maneira de construir. Como se constrói e as técnicas. Andei muito em obra e a perceber, na Europa, o que era o design e o que era o que eu fazia. Nem eu sabia muito bem o que era.» Na verdade, sentia que era único em Portugal ou que «poucos o faziam». «Já faziam arquitetura, claro, já faziam decoração, design gráfico, arquitetura de interiores, mas não faziam designde interiores, que é uma coisa totalmente distinta. Foram muitos anos que eu considerei de aprendizagem. Aprendi a trabalhar.»

O que é o design de interiores?

Alguém que trabalha uma área criativa tem sempre um mestre, uma inspiração. Enrico Baleri é o de Paulo Lobo. «É considerado um mestre do design italiano, responsável por peças muito importantes, que me marcou e que reconheceu o meu talento e o meu trabalho aqui em Portugal e que se tornou meu amigo. É um ensinador de design, com muita alma e com um sentido de humor fantástico. Em Itália, mostrou-me como se faz muita coisa. Com ele aprendi muito.»

Foi sempre assim, na carreira de Paulo Lobo. Ele considera-se um designer por natureza. E não gosta de ser chamado decorador. «Apenas porque é uma coisa diferente. É alguém que faz decoração. Muda a cor, coloca a jarra na mesa…» A chave da diferença está no design que dá aos objetos a sua forma. «Qualquer objeto que se vê foi desenhado. Desde o secador aos óculos de sol. Alguém desenhou e esse desenho foi pensado para cumprir uma função. É a chave dos interiores. Daí a grande diferença entre design de interiores e decoração. Esta limita-se a que fique bem, o outro tem de cumprir uma função.»

Pode o leitor nunca ter pensado nisso, mas sempre que entra num centro comercial, por exemplo, vai começar a reparar que houve um designer de interiores que se esforçou por criar um ambiente convidativo para se sentir impelido a comprar. Outro dos atributos do design de interiores nesses espaços é, de certa forma, ser mais chamativo, para que grandes marcas se instalem nesse, preterindo outros centros comerciais. «O designde interiores dedica-se muito a fazer espaços públicos e tem que ver com produto e com venda. Promove, faz, cria atmosferas para se venderem a elas próprias e aos seus produtos. Restauração, hotelaria, lojas de moda que, para além do produto, vendem uma atmosfera que vende esse produto. De uma maneira geral, é isso odesign de interiores», explica Paulo Lobo.

Um dos últimos projetos internacionais de Paulo Lobo foi realizado na Corunha. Esteve na produção de um The Style Outlet – um centro comercial idêntico ao de Vila do Conde. Também já tinha feito um outro em Madrid. «O objetivo era elevar o nível de qualidade do outlet para que se instalassem lá mais marcas de prestígio. O que foi conseguido com sucesso no de Vila do Conde. As lojas estão mais bem tratadas e quase chegam a ser como lojas normais de centros comerciais e não como lojas de outlet. O da Corunha é parecido com este. E o princípio é o mesmo.»

Paulo Lobo gosta de morar no Porto e não trocava por nenhuma outra cidade. Até porque, diz, contribuiu para a mudança da cidade com os seus projetos. E qual o que mais o desafiou? «Nenhum em especial. O Buondi sim, porque era muito novinho quando o fiz. Mas são todos um desafio, há uns mais fáceis outros menos. Outros mais complicados. Mas não há nenhum especial.»

A maior parte dos projetos do designer estão no Porto. Mas também os tem em Lisboa, Espanha, Itália, Suíça e Polónia. São mais de 130. Muitos mais. Mas Paulo Lobo já parou de os contar há muito. Um dia há de fazê-lo, promete. Nos internacionais, destaca um em Pescara, Itália: o restaurante Thomas Café. E, em San Sebastian, uma loja pequena para o conhecido estilista Manuel Pertega, que desenhou o vestido de casamento da princesa Letícia, em Espanha.

Os projetos

O processo de trabalho no seu atelier é sempre o mesmo e tem tanto que ver com marketing como comdesign. «As pessoas vêm com uma ideia daquilo que querem abrir e as razões. Passam por um programa, para descobrir qual é o público alvo, e esperam que eu desenvolva qualquer coisa que lhes traga sucesso. E o sucesso delas é naturalmente o meu.» Ainda lhe mói um pouco o juízo o facto de fazer um projeto com um objetivo definido e, depois, os donos do espaço alterarem tudo. «Agora não me incomoda tanto. Ou pelo menos tento passar por cima disso.»

No seu gabinete, realiza em média dez projetos por ano. E não tem dúvidas. A parte mais desgastante desta profissão «é negociar com os clientes». Não pelas negociações de preços, até porque Paulo Lobo diz ter um certo gozo em fazer projetos low-cost, sendo isso «um desafio». Mas pelos diferentes tipos de clientes que encontra pela frente. «Há os que sabem criticar e os que não sabem. Tentamos levar as coisas até ao fim mas, às vezes, envolve muita gente e é um processo complicado.» Para fazer design de interiores de casas diz ser preciso ainda uma dose extra de paciência. «É preciso que a base seja boa e o cliente também. As casas são diferentes. Não têm um produto que pretende ser vencedor. Têm uma família, com filhos, avó, sogra, e as pessoas envolvem-se muito… E eu não tenho muita paciência porque o processo torna-se mais lento.»

Por ter conseguido uma carreira a pulso, descobrindo de forma autodidata o seu caminho no design, fica irritado com alguns jovens designers que lhe aparecem pela frente e, diz, não sabem sequer as bases. «A interpretação entre forma e função é a chave do design e de qualquer produto de design. Acho incrível como existem pessoas, que são formadas nesta área, e não sabem o que isso é. Há gente nova com qualidade e outra que não sabe o que é o design. Estes últimos apenas imitam bem. Mas há um dia em que imitar não basta.»

Estilo minimalista?

A Paulo Lobo foram-lhe atribuídos vários estilos ao longo da carreira. Um deles o minimalista. «É verdade que tenho algumas coisas minimalistas de antigamente. As influências de hoje são muito baseadas na utilização de técnicas artesanais. É uma coisa que me interessa, não sei se é pela idade e pelas tendências internacionais. Hoje em dia querem-se coisas mais humanas. Quando se toca na peça sabe-se que houve alguém que fez aquilo à mão, a personalidade e a técnica de um artesão estão lá.»

Já teve várias lojas com objetos desenhados pelo designer e também por designers internacionais. Na altura eram novidade. «Era um apetite ter essas coisas cá na altura, porque não havia em mais lado nenhum.» Atualmente, Paulo Lobo tem a Lobo Taste e a Hats & CATS, no Porto. Na Lobo Taste, os produtos têm «técnicas puras do artesanato. Podemos ter peças de alguém que trabalha cestaria e que possa aparecer com a mesma técnica num biombo ou num painel. É algo que me interessa, mas também é uma tendência internacional».

Vai às feiras internacionais de design e lê as revistas todas da área. «Absolutamente tudo. Desde as revistas de moda, à música que teve sempre influência em mim. Gosto da world music. Gosto de apreciar a fusão de música tradicional com outros estilos. Depende do estado de espírito, mas gosto de muita música diferente.» Quando era miúdo gostava muito dos Stones e gostava de ter aprendido a tocar piano. Agora, comprar discos é um dos seus prazeres secretos. Um sonho? «Gostava de ter a melhor aparelhagem do mundo.» Confessa que não lê muito, gosta pouco de ir ao cinema «porque já só existem os de shopping» e o cheiro a pipocas incomoda-o. É tudo, como no design, uma questão de sensibilidade.

Nova loja na Ribeira

Acabou de abrir a nova Paulo Lobo no Porto. O novo espaço vai chamar-se Hats & CATS e fica na Ribeira do Porto, na Rua do Infante Dom Henrique. O nome tem um significado próprio. Hats – porque os chapéus, diversos e de todo o mundo vão estar em destaque – & CATS – significa Cosmopolitan Articles Tradition and Simplicity.

Enquanto a outra loja do designer, a Lobo Taste, junto à Bolsa, no Porto, apresenta produtos portugueses, esta tem como objetivo comercializar principalmente produtos de todo o mundo. «Desde acessórios de moda até peças de decoração, desde o Sri Lanka até Nova Iorque, por exemplo, dando destaque a muitos produtos artesanais», explicou Paulo Lobo à Notícias Magazine.

 

Entrevista de 2012