Havai, Austrália… e Nazaré?

por Susana Ribeiro. Fotografia de Henriques da Cunha/GI

E de repente a Nazaré está nas bocas do mundo. Toda a gente fala da onda de quase trinta metros que Garrett McNamara surfou a 1 de Novembro. Qualquer coisa como um prédio de dez andares. O vídeo já correu mundo e os surfistas de grandes ondas estão entusiasmados com esta «nova» meca do surf em Portugal.

Mas as ondas não surgiram agora. Nada disso. As ondas grandes sempre fizeram parte da paisagem da Nazaré, assim como as condições únicas da Praia do Norte, influenciada pelo chamado canhão da Nazaré [ver caixa]. Muito provavelmente, haverá quem diga que já surfou ondas desse tamanho naquele local. A única diferença é que esta ficou filmada, documentada, e faz parte de um projecto de três anos que a Câmara Municipal da Nazaré está a levar muito a sério e que pretende que seja uma preciosa ajuda na promoção turística da região a nível mundial.

A ideia de que seria na Praia do Norte que apanharia a maior onda da sua vida foi sempre uma certeza para Garrett McNamara. Só não sabia quando. Este havaino de 44 anos é conhecido por ser um big wave rider – um surfista especialista em ondas grandes. Entre os seus locais de aventuras está o Alasca, com ondas produzidas pela queda de blocos de gelo dos glaciares. «Uma loucura que não voltava a repetir.»

A noção de quem enfrenta perigos sempre que se faz a uma destas ondas é notória. Mas o medo é algo que não lhe assiste. «Quando estou no mar não penso no medo.» Sobre a famosa onda de trinta metros diz que «a força era tanta que senti como se tijolos me estivessem a cair sobre as costas». Nas imagens que correram mundo, vê-se Garrett numa cavalgada frenética a descer a onda, depois quase desaparece no meio da espuma e de repente surge em pose relaxada. Esta é a sua especialidade. É um extreme waterman explorer e já recebeu vários prémios para quem desafia ondas grandes. Na corrida ao Billabong XXL Global Big Wave Awards 2012 – uma espécie de «óscares» do surf de ondas grandes – McNamara tem várias ondas a concurso para a categoria de Maior Onda, incluindo, claro, a que apanhou na Praia do Norte, na Nazaré, a 1 de Novembro. É a primeira vez que ondas portuguesas são referenciadas neste galardão.

Garrett é pessoa de vida simples. No seu dia-a-dia normal levanta-se às cinco da manhã: «Faço uma oração, leio, faço alongamentos e vou ver o mar.» O seu nome anda na boca do mundo, já deu entrevistas a vários meios de comunicação internacionais por causa da onda nazarena, da CNN aos media portugueses. Ainda assim, mantém o estilo descontraído: chinelos, T-shirt branca, calças de fato de treino e boné.

Colocar a Nazaré no mapa

Pedro Pisco, da Nazaré Qualifica, a empresa municipal criada em 2007 que tem gerido os projectos de exploração do canhão da Nazaré, quase nem acredita na projecção que a localidade está a ter. As ondas surfadas por McNamara vieram dar uma ajuda preciosa.

Tudo começou, em 2005, com uma fotografia às ondas da Praia do Norte que Dino Casimiro, também funcionário da autarquia, tirou e decidiu enviar a alguns surfistas de ondas grandes, entre os quais Garrett. O havaiano ficou logo interessado, mas desconhecia a existência das ondas da Nazaré: «Era o segredo mais bem guardado do mundo. Ouvia falar de outras ondas noutros países da Europa, mas não de Portugal e nunca tinha ouvido falar da Nazaré.»

Note-se que o surf na Praia do Norte não é para todos. Para surfar neste spot, Garrett pratica o tow in, ou seja, é levado de mota de água até à onda, para lá da rebentação. A mota é também um apoio muito importante quando se desafia a morte sempre que apanha uma onda. «A profundidade da água é boa, mas se cair, a areia do fundo é como cimento», lembra.

«Enviámos aquela fotografia com alguma inocência, só para mostrar», conta Pedro Pisco. «Mas vimos que era um potencial que nos passava completamente ao lado. Foi então que decidimos que queríamos abrir este mercado, não só ao surf, mas ao turismo em geral.» Formalizaram depois o convite para Garrett vir à Nazaré. A primeira acção começou no ano passado, para ver se havia condições de explorar este fenómeno natural da Praia do Norte que pretende projectar a Nazaré mundialmente entre os praticantes de desportos de água. Agora há um segundo trabalho em curso e, no próximo ano, a Praia do Norte vai receber uma prova internacional, a North Canyon Tow In Trials.

De câmara em punho

Desde o início do projecto que existiu a preocupação de documentar toda a acção. Já no ano passado se tinham realizado filmagens que resultaram num primeiro documentário, com o apoio da Zon, que tem as imagens disponíveis em video on demand. São 52 minutos de filme sobre a Nazaré e a exploração das ondas grandes da Praia do Norte por Garrett McNamara. No total do projecto, existirão três documentários. E se o primeiro deles, exibido no mês passado em algumas salas de Lisboa e do Porto, foi feito sem pensar que teria tanta projecção, agora, as contas são outras. Este ano, a equipa cresceu e acompanha em permanência os passos e as surfadas de McNamara em Portugal.

O segundo documentário contará com o trabalho de Jorge Leal, Wilson Ribeiro, Ivo Correia e Gustavo Neves, um brasileiro de 25 anos que há dois se dedica a esta empreitada. Quando chegou a Portugal, um amigo da Zon tinha um vídeo em alta definição com as imagens realizadas na expedição de Garrett McNamara no ano passado. «Olhei e achei muito interessante. Em Janeiro comecei a editar e em Agosto, concluí o documentário.»

Envolvido desde o início neste projecto de exploração com Garrett McNamara está Jorge Leal, fotógrafo que captou as imagens do ano passado. Os vídeos – a par da fotografia – pretendiam dar a conhecer «o tow in feito nas condições extremas que a Praia do Norte proporciona. São situações únicas, como se viu com a onda de trinta metros», adianta.

Como alguns membros da equipa de filmagem também surfam, é inevitável perguntar-lhes se, quando vêm as ondas, não têm vontade de largar tudo e correr para a água com as pranchas. A resposta é rápida e unânime: não! «É preciso ser muito experiente neste tipo de ondas e no tow in, como o Garrett. É ter preparação física e uma experiência forte para lidar com a força desta onda. Podemos perder a vida ali», atiram todos para a conversa.

«Quando estávamos a filmar e a fotografar vimos logo que aquela era uma onda especial. Aliás, apareceram dois sets muito especiais, com ondas entre os oito e os dez metros, mais ou menos constantes, mas aquela surpreendeu todos e o Garrett apanhou a maior. Vimos logo que era uma onda para concorrer às maiores do mundo», conta Jorge Leal, recordando a onda de 1 de Novembro que viu através da lente da sua câmara. «O potencial da Praia do Norte para os big wave riders é enorme. O CJ Macias, que está a aprender com o Garrett, já conseguiu apanhar uma onda que está no quadro da Billabong XXL. E é a primeira vez que vem para aqui!», salienta o fotógrafo.

A importância deste trabalho é salientada também pelo documentarista Gustavo Neves: «Geralmente os filmes de surf são sobre viagens, este é mais profundo, onde também focamos a região e o canhão da Nazaré. Estamos aqui todos os dias a acompanhar o projecto e mostrámos nas imagens todo o tipo de mar, desde ondas de um metro a mais de vinte metros e agora a onda gigante.»

«O próprio Garrett faz pesquisa à procura de ondas de cem pés [trinta metros], uma espécie de Santo Graal dos big wave riders», conta Pedro Pisco. No dia em que apanhou a onda – que na realidade tinha noventa pés [27 metros] – McNamara não imaginava que seria o seu dia de sorte. Estava dentro de água, sem saber o que o esperava, «muito relaxado». Ao contar a experiência de surfar a onda gigante, diz que não pensou em nada de concreto: «Só depois percebi que era uma onda especial. O vento era tão forte dentro da onda que não ouvia nada. É uma onda muito misteriosa e muito mágica. Nunca sabemos o que vai aparecer lá fora.»

O projecto de exploração das potencialidades da Nazaré e da Praia do Norte foi delineado para três anos, mas «com este sucesso já estamos a pensar muito mais à frente», conta Pedro Pisco. O investimento é de privados, por isso, a Câmara Municipal contou sempre com apoios, e também de «muitos nazarenos que acreditam e, agora, estão a ter o retorno». No âmbito do projecto, está ainda prevista a construção de um Centro de Alto Rendimento de Surf, que inclui treino de resgate e salvamento aquático, um projecto de educação ambiental e um Museu de Ondas Grandes. Tudo com a chancela de Garrett McNamara.

O canhão da Nazaré

O segredo das ondas gigantes na Praia do Norte vem do fenómeno conhecido como canhão da Nazaré e que proporciona a criação de ondas com um tamanho fora do normal. De acordo com o Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa – que mantém um estudo permanente no local com bóias de monitorização – «a proximidade do canhão da Nazaré à Praia do Norte promove uma situação de empolamento com intensidade significativa». Condições que, com o vento e a direcção de ondulação certos, produzem as «ondas perfeitas» de que Garrett McNamara fala.

Este é um acidente geomorfológico raro, tido como o maior da Europa e um dos maiores do mundo. O «canhão da Nazaré é uma falha na placa continental com cerca de 170 quilómetros de comprimento e que atinge os cinco quilómetros de profundidade. Está localizado em frente à Praia do Norte e canaliza a ondulação do oceano Atlântico para esta praia praticamente sem obstáculos, proporcionando a criação de ondas com um tamanho fora do normal, por comparação com a restante costa portuguesa.

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