Pés peregrinos

Por SUSANA RIBEIRO. FOTOGRAFIA JOSÉ MOTA/GLOBAL IMAGENS

Todos os anos milhares de peregrinos rumam a Fátima por altura do 13 de Maio. Todos pela devoção que os une a Nossa Senhora. Fazem quilómetros, muitas vezes em sofrimento por causa de problemas nos pés. Pelo caminho encontram os postos de podologia que atenuam a dor e confortam o espírito.

São 150 os podologistas voluntários da CESPU (Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário) – docentes e alunos – que dão apoio gratuito aos peregrinos que se deslocam a Fátima a pé. Os romeiros que partem do Norte fazem aproximadamente quarenta quilómetros diários, num total de mais de duzentos, para chegar ao santuário. Durante o caminho, os postos de podologistas vão aliviando os maiores males dos peregrinos a pé: bolhas, hematomas, mialgias e contracturas (dores musculares), alterações dérmicas, entorses, fasceítes plantares, edemas, alergias, problemas ungueais, insolações, vasculites e úlceras. Nomes conhecidos de muitos, que por vezes já trazem na bagagem problemas nos pés e nunca os trataram devidamente.

A podologia é uma área que tem vindo a crescer, mas só recentemente a Assembleia da República aprovou um projecto de resolução que reconhece a profissão de podologista. São cerca de mil os profissionais em actividade em Portugal, e a regulamentação desta nova profissão de saúde pode permitir, por exemplo, que os podologistas passem a ter uma carreira no Serviço Nacional de Saúde, o que até agora não acontecia. A falta de enquadramento fiscal e o uso indevido do título profissional por técnicos não qualificados são outros problemas que os podologista querem ver resolvidos.

Os problemas dos pés

A podologia é uma disciplina da área da saúde que estuda, previne, diagnostica e trata as alterações dos pés e as suas repercussões no corpo humano. Sendo o pé a nossa base, qualquer alteração nos pés pode afectar o normal funcionamento do corpo humano.

Os problemas dos pés são variados. Um estudo do Instituto Politécnico de Saúde do Norte (IPSN), da CESPU, que envolveu cerca de 1700 crianças, concluiu que 34 por cento apresentava doenças nos pés, sendo as mais frequentes pé plano, pé valgo, hiperidrose e onicocriptoses e verrugas plantares. Um dos problemas mais graves tratados no âmbito da podologia é o pé diabético, principal causa de amputação não traumática dos membros inferiores e o maior responsável pelo internamento hospitalar dos diabéticos. Estudos científicos mostram que existe uma redução de sessenta por cento de amputações quando existe acompanhamento podológico.

Recostada na cadeira, em consulta na CESPU de Vila Nova de Famalicão, Maria Rosa Pereira, 55 anos, olha para os seus pés, que lhe têm trazido maiores dores e desassossego nos últimos anos. Sempre teve calos e muitas dores, mas desde há quatro anos a sua vida mudou. Passou a ter consultas com podologistas, e de dois em dois meses vai fazer o tratamento que lhe melhorou a qualidade de vida. «Usei muito saltos altos e não se deve», diz Maria Rosa. Mas o podologista Manuel Portela faz questão de frisar que os problemas nunca são de um só factor, «pode ser falta de uma vitamina, sapatos que se usam, maior facilidade para encravar unhas, entre muitos outros». Adianta que «há também muita gente que não sabe cortar bem as unhas e os calos são apenas uma defesa do pé e surgem nos locais onde existe maior pressão».

«Deveríamos ter mais cuidado com os pés», diz, em tom de lamento, Maria Rosa. Manuel Portela considera que «já começa a haver maior informação e que a prevenção também começa a instalar-se ao nível da podologia infantil».

Cuidados redobrados em peregrinação

Ali ao lado, ainda na CESPU, no gabinete do podologista Miguel Oliveira, estão duas peregrinas que costumam fazer a caminhada até Fátima para o 13 de Maio. Eulália Ferreira é de Vila do Conde, tem 52 anos. Patrícia Cardoso tem 34 anos e é de Famalicão. Ambas têm consultas periódicas na CESPU e antes de partirem para a peregrinação têm cuidados redobrados.

Eulália faz a caminhada por etapas e demora quatro dias. O marido vai buscá-la e levá-la ao mesmo ponto para recomeçar. «Apesar de algumas dores nos pés, sou das que estão mais frescas no dia seguinte, porque descansei em casa e assim consigo dar maior apoio aos outros, muitas vezes dar a mão», diz Eulália, com um ar sorridente. Faz a peregrinação há oito anos, sem promessa implícita, e diz que, «enquanto puder, vou». Patrícia faz o caminho para Fátima há seis anos, primeiro pela promessa pelo avô, agora vai apenas porque «é algo muito enriquecedor».

Mesmo com tantos quilómetros nos pés, Patrícia garante que nunca teve bolhas. Mas numa das vezes descobriu – num dos postos mantidos por podologistas da CESPU – que as dores que tinha vinham de um desnivelamento na perna que «nunca tinha sentido». «Colocaram-me logo algo na sapatilha para compensar e continuei a caminhada», refere a peregrina. «Quando regressei, vim a uma consulta e fizeram-me uns suportes plantares, para resolver esse desnível que iria ter influência na coluna», diz Patrícia Cardoso.

O apoio nos postos de peregrinação está aberto e é gratuito para qualquer pessoa. Desde 1997 que a CESPU faz esta acção e tem tido uma presença habitual junto dos peregrinos. Patrícia sublinha que «são tão peregrinos como nós. Não estão só a tratar, também ouvem os nossos desabafos».

«Nós minimizamos a dor de quem faz a peregrinação, mas o esforço mantém-se», refere o podologista Miguel Oliveira.

«Antes de 1994 quase não se ouvia falar de podologia em Portugal», diz o especialista. «Os pés estão tapados a maior parte do ano e as pessoas não lhes dão muito valor», adianta. «Mas é preciso haver consciência de que muita gente caminha sobre problemas», diz Miguel Oliveira.

«Pelo menos uma vez por ano as pessoas deviam vir ao podologista, mas há quem tenha de vir mais vezes, devido às suas necessidades», ressalva.

Eulália Ferreira tem problemas crónicos, alguns que esperam muito provavelmente uma cirurgia. Por isso, vem umas quatro vezes por ano e traz com ela a família, amigos e ainda hóspedes do lar que tem na Maia. «O podologista não pode ser visto como uma evolução do calista, temos uma formação superior e agora temos especialização em diversas áreas. Na podologia os tratamentos são muito personalizados, ninguém tem tratamentos iguais, porque os problemas são sempre diferentes», conclui Miguel Oliveira.

Podologia em Portugal

No ano passado, ao receber os peregrinos, os voluntários da CESPU praticaram cerca de três mil actos podológicos.

O curso de Podologia existe desde 1994, e a CESPU é a única instituição de ensino superior a leccionar este curso. O actual director do Departamento de Podologia da CESPU é Domingos Gomes, antigo médico do Futebol Clube do Porto. Em 2009, este departamento criou o primeiro mestrado na Europa na área do pé e do tornozelo. Os mestrados em Podiatria – considerada uma especialidade médica nos EUA – permitem aos podologistas obter um grau de especialização em quatro áreas: podiatria clínica, podiatria geriátrica, podiatria infantil e podiatria do exercício físico e do desporto.

Cuidados gerais a ter com os pés

_Higiene diária, lavar os pés todos os dias com sabonete de pH neutro.

_Secar rmuito bem os pés, especialmente entre os dedos.

_Observar os pés diariamente, directamente ou através de um espelho.

_Hidratar a planta do pé com um creme específico para pés.

_Cortar as unhas de forma recta com instrumento desinfectado e de uso pessoal.

_Usar meias de fibras naturais (lã, algodão, seda).

_Usar calçado estável de material natural e respirável (pele, couro).

_O calçado deve ser adquirido ao final do dia (quando o pé já apresenta algum edema).

_Não realizar autotratamento.

_Consultar um podologista uma vez por ano e sempre que exista algum sinal ou sintoma.

Publicado a 8 de Maio de 2011, na Notícias Magazine.

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