Uma escola no campo

Texto: Susana Ribeiro

Foto: Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens

Em Fermil, Celorico de Basto, a Escola Profissional não é uma escola comum. Tem uma ETAR, preocupações ecológicas e vende produtos que são cultivados pelos alunos que frequentam os cursos de agricultura. Já foram cursos que ninguém queria, agora dão novas perspectivas a um cada vez mais incerto mercado de trabalho.

Há cerca de 1200 alunos em cursos nas escolas profissionais de agricultura em Portugal, e trinta escolas profissionais de agricultura. Mas em Celorico de Basto, com uma história de quase quarenta anos (ver caixa), a Escola Profissional de Fermil (EPF) tem cursos de mecânica, bombeiros, controlo e qualidade alimentar, electrónica e telecomunicações, mecatrónica de automóveis ligeiros, turismo e produção agrária. «Há uns anos, estes cursos eram vistos como os que ninguém queria», diz o director da escola, Fernando Fevereiro. «Agora são cursos que estão a voltar, porque têm sempre saída», realça. São outros tempos. Numa sociedade repleta de licenciados desempregados, tem sido maior a procura de cursos com saída imediata. «Daqui também saem muitos para a universidade, outros emigram e muitos começam logo a trabalhar», adianta Fernando Fevereiro. «Do curso de produção agrária saem alunos habilitados a pegar imediatamente numa produção e a explorá-la», revela o director. «Os que vêm para aqui sabem o que querem da vida», garante.

O edifício central da escola é uma casa senhorial, de paredes de pedra, transformada ao longo dos anos. «Já tivemos prefabricados, mas agora as salas estão dotadas de aparelhos modernos.» Fernando Fevereiro conta uma vida de trabalhos. Quando jovem, foi porteiro no Jornal de Notícias, no Porto. Estudou engenharia florestal em Vila Real, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e, desde 1989, é director da Escola Profissional de Fermil. «Tenho muita fé nesta rapaziada», diz, convicto. «A escola é feita por eles. São miúdos, na sua generalidade, muito responsáveis e bem-educados». Uma das particularidades que destaca «é a forte ligação entre professores e alunos». Talvez por isso, seja fácil crescerem projectos como o Festival de Cinema Rural: o Farm Film (ver caixa).

«Aqui ninguém abandona a escola a meio», garante o director ao explicar que o ensino profissional não pode ser encarado como uma segunda escolha. «A escola forma mão-de-obra qualificada para o país e, por isso, é com pena que muitas vezes vemo-los a emigrar, porque aqui não conseguem emprego com salários justos», adianta Fernando Fevereiro. O director revela ainda que lidam com situações económicas e sociais muito difíceis. «Existem muitos casos que passam à margem das autoridades e que aqui tentámos ajudar, porque é uma comunidade pequena e unida. Isto faz parte da mística da escola», assinala o director.

Cada turma tem cerca de vinte alunos e «quem vem do ensino regular nota logo a diferença», salienta o director. «Aqui as coisas são completamente diferentes. Os alunos têm um acompanhamento mais próximo e dedicado», enfatiza. Não há pinturas nas paredes, nem material estragado: «Existe empenho da direcção e professores que faz que os alunos sigam os exemplos.» «Está tudo impecável e limpo, como podem ver», mostra o director. «São jovens como os outros e fazem as suas garotices. Houve um grupo que sujou a paragem do autocarro, mas a seguir o castigo foi pintarem-na de novo», conta. Alunos e professores almoçam gratuitamente na escola. «Para alguns alunos é a única refeição decente que têm durante todo o dia e nós temos o cuidado de seguir esses casos especiais», indica o director.

Não devem ser muitas as escolas que, da produção de alimentos, fazem dinheiro. Da vacaria sai o leite que vendem à Agros e, nas vindimas, saem «as melhores uvas» para a empresa Aveleda. As uvas que sobram servem para a produção da marca própria de vinho. O néctar produzido e engarrafado pelos alunos é comercializado e «tem muita saída», garante o director. As produções desta escola passam também por semear milho para o gado e, no ano passado, produziram seiscentos quilos de kiwis. «O nosso objectivo é produzir seis toneladas de kiwis por ano», realça Fernando Fevereiro. Os produtos são todos vendidos a associações certificadas. Tudo potencialidades tiradas dos 23 hectares de terra da Escola Profissional de Fermil, dos quais onze são de prado, nove de vinha e 1,9 de kiwis. «Nunca ficámos com o lucro, mas ajuda nos nossos gastos. Todo o dinheiro que fazemos é dado ao Estado que depois nos vai chegando consoante as nossas necessidades», revela o director. Das contas da venda dos produtos garante que «dá para pagar a água, a luz, o telefone, arranjos das máquinas e quase toda a manutenção». Também no âmbito da educação ambiental, o estabelecimento tem painéis solares e são a «única escola do país com uma ETAR biológica», onde fazem reaproveitamento da água dos esgotos.

«A grande mais-valia desta escola é a natureza dos seus alunos. São, na generalidade, rapazes e raparigas humildes, educados e empenhados, o que já não é fácil de encontrar», elogia o professor Leonel Castro. «Todos aqueles que são mais rebeldes, desalinhados, acabam por ser absorvidos pelo bom ambiente que se vive nesta escola», salienta o docente. Foi nos laboratórios que encontrámos José Augusto Munguampe. Veio de Moçambique para estudar na Escola Profissional de Fermil, ao abrigo do convénio da Fundação Portugal-África. Tem 23 anos, mas com a sua cara de menino ninguém o diria. Quando terminar os estudos tem de trabalhar com o governo moçambicano e passar os ensinamentos que recebeu. Na escola estão dois estudantes vindos de Moçambique. José Augusto é um deles. Não é de muitas palavras, mas diz gostar de todas as disciplinas e de Portugal. «Depois da escola, vão fazer seis meses em formação pedagógica na Universidade Católica Portuguesa para poderem dar aulas», adianta Maria de Lourdes Moura, que nos acompanha na visita. Já foi aluna desta escola, seguiu o ensino superior e é professora há seis anos na EPF.

Na sala de Turismo

Numa das salas, uma turma do 11.º ano de Turismo faz o relatório dos estágios. Vasco Oliveira tem 17 anos e nas suas palavras não demonstra incertezas quanto ao seu futuro. É convincente quando diz que escolheu «este curso porque tem várias saídas». Vasco é de Celorico de Basto e deseja fazer a especialidade no Curso de Animador Cultural. Na mesma turma está Daniela Moreira. Tem também 17 anos mas ainda não consegue dizer o que quer fazer da vida. Espera pelo 12.º para decidir se vai prosseguir estudos ou então entrar directamente no mercado de trabalho. Para já, confessa que escolheu «esta escola porque talvez seja mais fácil para arranjar emprego». Apesar dos seus 16 anos, Sérgio Rodrigues assume um ar sério quando o questionámos sobre o seu futuro. «O turismo está em evolução no país e o meu futuro dependia da minha escolha», diz o estudante celoricense. «O turismo sempre me pareceu a área mais apropriada para apostar», adianta, confidenciando que «se a curto prazo houver a possibilidade, quero ir para a Faculdade», admitindo que tudo dependerá da situação financeira da família.

Todos os alunos fazem estágio durante um mês e meio como formação no contexto de trabalho. «Temos várias empresas em carteira, para onde os nossos alunos vão estagiar», diz Fernando Fevereiro. «Também podem ir estagiar para fora do país e também recebemos aqui alunos estrangeiros». «Muitos recebem propostas de trabalho mal acaba o estágio», refere o director. «A prática adquirida é muito importante, dá mais autonomia e responsabilidade», salienta a professora Sandra Teixeira, que também é directora do curso Técnico de Turismo.

Alunos de Produção Agrária

Marta Pereira é de Mondim de Basto e chegou à Escola de Fermil por causa das más notas. Tem 16 anos e frequenta o curso de Técnico de Produção Agrária. «Tive más notas e os meus pais quiseram que eu viesse para cá». Por coincidência, este foi o rumo que Marta sempre quis para a sua vida: «Sempre tive interesse nesta área, porque cresci no meio rural. O meu sonho é trabalhar com animais». Marta revela também que quer «seguir esta área, porque sei que o mercado de trabalho está necessitado de pessoas formadas em produção agrária». Já Pedro Ramos diz que foi aqui que encontrou o curso que queria: «Esta era a área que mais se adequava a mim». O facto de os pais serem agricultores também impulsionou a escolha. Mas Pedro ainda não decidiu se continua os estudos ou se segue já para o mercado de trabalho. Da mesma turma, Rui Pereira não tem dúvidas e vê o curso como «uma oportunidade de arranjar emprego mais facilmente». O professor Leonel Castro sai em defesa das escolhas dos alunos: «Todos têm maior probabilidade de arranjar emprego com estes cursos» e «a maioria sabe que está a apostar bem no seu futuro», diz o docente.

Nas terras anexas às instalações escolares estão os dormitórios, os terrenos de cultivo, a vacaria com 25 cabeças de gado, o local de produção do vinho e cavalos garranos. Mas garante o director que «temos ainda muito por onde crescer», adiantando que «gostaria de implementar uma casa de turismo rural no espaço, que serviria também como forma de aprendizagem para os alunos».

Para além disto tudo, a Escola Profissional de Fermil dispõe de um dormitório para professores e alunos que vêm de fora. O internato é gratuito para os alunos e, segundo o director, «é um factor que chama mais alunos para a nossa escola, principalmente para os que são de longe». A maioria dos alunos é da região, mas existem outros que vêm de cidades como Guimarães, Porto e Coimbra. Dos 250 alunos matriculados este ano lectivo, 25 estão ali alojados e também alguns professores. Segundo os dados da EPFCB, cerca de metade dos alunos que terminam o 12.º ano seguem para o mercado de trabalho e os restantes optam por prosseguir estudos no ensino superior.

Farm Film Festival – Festival de Cinema Rural

A ideia de realizar um festival de cinema rural surgiu durante uma aula de Português, leccionada pelo professor Leonel Castro. Enquanto falava dos textos dos media, na turma do curso de Técnico de Produção Agrária, teve «uma feliz interrupção» com a pergunta de um aluno: «Porque não organizamos um festival de cinema rural?». «Todos se riram com o atrevimento do colega, aí eu pensei: e porque não?», revela o professor.

Leonel Castro diz que «tem sido um desafio em crescendo a organização», apesar de o Farm Film Festival – Festival de Cinema Rural ainda não contar com uma data definitiva. Começou por ser um desafio para amadores, mas agora tomou tamanha dimensão que vai ter duas vertentes: amadores e profissionais. O Farm Film conta, desde o início, com o patrocínio da Câmara Municipal de Celorico de Basto, da Câmara Municipal de Mondim de Basto e do Centro de Formação de Basto.

«O Farm Film Festival – Festival de Cinema Rural tem como principal objectivo premiar filmes e produções audiovisuais que promovam eficazmente o mundo rural, em qualquer uma das suas múltiplas dimensões: cultural, social, económica, recreativa, entre outras», adianta Leonel Castro. Para além disso, o Farm Film visa outros objectivos como «incentivar os jovens a iniciarem-se na realização e produção de filmes, bem como promover o mundo rural como elemento fundamental da nossa identidade, e em particular da região de Basto e Barroso e os concelhos anfitriões do festival», salienta o professor. Paralelamente à exibição de filmes e sua avaliação pelo júri, o Farm Film Festival vai dinamizar acções de animação e divulgação cultural, conferências, workshops e festas temáticas, entre outras actividades.

História da escola

A história deste estabelecimento começou com a criação da Escola Secundária de Fermil de Basto, em 1972. Os tempos eram outros e também a educação era outra. Era uma escola técnica (secção da Escola Técnica da Régua), com os cursos de Agricultura, Formação Feminina, Mecânica e Electricidade. «Basicamente era o que a região precisava naquela altura», adianta o director, Fernando Fevereiro. Apenas os cursos de Agricultura e Formação Feminina prosseguiram, os outros foram extintos por falta de oficinas e equipamento. As sucessivas alterações na Educação foram mudando os nomes dos cursos, e nos anos de 1980, foram criados os cursos técnico-profissionais de agropecuária e técnicos-profissionais florestais. A Escola de Fermil foi pioneira na criação deste último.

Em 1992, novas transformações mudam o nome do estabelecimento de ensino, que passou a designar-se Escola Profissional Agrícola de Fermil de Basto, que lança dois cursos: o de técnico de gestão agrícola e técnico florestal. No ano seguinte consegue obter dois novos cursos: técnico de gestão ambiental e paisagístico e técnico agroflorestal. Em 1995, passou a ser a Escola Profissional Agrícola de Fermil de Basto, onde foram diversificados os cursos passando a ter técnico de Turismo Ambiental e Rural e técnico de Gestão de Pequenas e Médias Empresas e Cooperativas. Recentemente mudou o nome para Escola Profissional de Fermil, Celorico de Basto (EPFCB). Mais informações em www.epfcb.pt.

Publicado na Notícias Magazine de 27 de Fevereiro de 2011

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