O admirável mundo Escolinhas.pt

por SUSANA RIBEIRO.  Fotografia: ADELINO MEIRELES

Em Portugal, cerca de duas centenas de escolas do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico já se juntaram ao Escolinhas.pt. Um projecto com carimbo nacional que pretende unir a comunidade escolar em torno das novas tecnologias. O programa traz também novas formas de aprendizagem, que todos querem explorar: alunos, professores e até os encarregados de educação.


Tudo começou na EB1 do Cedro, em Vila Nova de Gaia: «Foi aqui que começaram a surgir as primeiras ideias». diz Ademar Aguiar, um dos responsáveis pelo projecto Escolinhas.pt, que surgiu em Novembro de 2006. Actualmente, está em cerca de duzentas escolas – públicas e privadas – por todo o país.
Na altura, Ademar tinha as duas filhas a estudar naquele estabelecimento de ensino de Vila Nova de Gaia, e foi com base na experiência de encarregado de educação que lhe surgiu a ideia de criar uma base informática de trabalho para a comunidade escolar. E assim nasceu o Escolinhas.pt. «A primeira fase de um projecto tecnológico é dar acesso à tecnologia» e depois «ensinar a tirar partido dela», adianta o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e investigador no INESC Porto em Engenharia de Software.

«O objectivo da plataforma é disponibilizar a toda a comunidade educativa um conjunto integrado de funcionalidades que permitem integrar as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) nas práticas de ensino-aprendizagem de uma forma simples e útil», evidencia Ademar Aguiar. O promotor do projecto explica que o Escolinhas.pt tem como objectivo «a experimentação de abordagens mais motivadoras, interactivas, colaborativas e divertidas e que permitem potenciar a autonomia e criatividade».

Olhando de repente para o recreio barulhento da cinquentenária EB1 do Cedro, onde estão mais de trezentas crianças, parece que nada mudou nos últimos anos. Os rapazes correm, já transpirados pela brincadeira, e as meninas menos afoitas – pelo menos aparentemente – brincam a uma espécie de um-do-li-tá. Mas depressa vemos que esta é uma era diferente. Quando, já dentro da sala de aula, a professora pede a uma turma do quarto ano para tirar os Magalhães das mochilas e a colocar os computadores em rede.
A EB1 do Cedro é uma das cerca de duas centenas de escolas no país que usa o Escolinhas.pt como ferramenta de trabalho. A coordenadora do estabelecimento de ensino, Elsa Pinto, só tem palavras de elogio para o programa desenvolvido a norte. «Fazer uma composição deixou de ser uma obrigação, agora as crianças fazem-na muito mais motivadas nos computadores», adianta. No quadro interactivo, o aluno expõe o seu texto, escrito no computador, acompanhado por um desenho digital. «É sem dúvida um complemento educativo muito importante», diz Elsa Pinto. «Podem adicionar vídeos, mapas, que tornam alguns trabalhos ainda mais interessantes», complementa Ademar Aguiar.
Na sala da turma do quarto ano está a professora Angelina Pereira que dá aulas há 37 anos. «No início não foi nada fácil», admite a docente, que confessa que «nunca tinha sido grande apaixonada pelas novas tecnologias. Agora aprendo todos os dias algo novo com eles. Também tive de aprender a funcionar com tudo, desde que chegaram os Magalhães, mas muitas vezes são eles que ensinam a resolver problemas informáticos», diz a professora, enquanto tenta perceber porque é que a internet deixou de funcionar. «Somos a única escola em Vila Nova de Gaia que tem wireless em todas as salas», explica Elsa Pinto, confirmando que só o conseguiram com apoios.
Nem tudo é perfeito. Há muitos Magalhães que já avariaram, e muitos pais não têm dinheiro para os mandar arranjar, informa Elsa Pinto: «Muitas vezes, o Magalhães é o único computador de muitas casas.» «Para estas gerações sempre houve internet, por isso temos de explorar essa vertente», recorda a coordenadora, explicando que «os textos continuam a ser escritos à mão, por isso isto não é uma substituição, é um complemento do ensino». Mesmo a professora Angelina Pereira garante que, nos textos escritos a computador, «as piadinhas, próprias destas idades, continuam lá ainda que seja num suporte digital».
«Eles são nativos digitais, nasceram neste planeta digital e para eles é fácil mexer nos programas», defende Ademar Aguiar. O Escolinhas.pt permite também a partilha de conhecimento: «Podem ajudar colegas a corrigir trabalhos e trocar ideias», acrescenta Ademar, admitindo que muitas das ideias que teve para o Escolinhas.pt vieram da experiência das suas próprias filhas.
«Lembro-me de vir à escola, no Dia Aberto, no final do primeiro ano lectivo e de ver o portefólio de trabalhos que foram feitos e lembrar-me que seria bom ter também em suporte digital alguns deles», conta. E foi assim que começou a trabalhar no projecto Escolinhas.pt.
É um projecto pioneiro em Portugal e no panorama internacional, e está em estudo a sua utilização no estrangeiro. Segundo o investigador e docente da FEUP, o Escolinhas.pt «é para a faixa etária-alvo uma plataforma inovadora, sem paralelo no país, e já bem perto das melhores a nível internacional». O Escolinhas.pt permite que as turmas tenham blogues, partilhem informações e troquem mensagens. «A segurança é importante», enfatiza Ademar, explicando que cada um tem a sua palavra-passe. Os encarregados de educação podem também seguir os trabalhos e as pesquisas dos seus educandos, mesmo a partir de casa.
Nem tudo é brincadeira no Escolinhas.pt. Os professores podem lançar desafios e problemas nos blogues, aos quais os alunos têm de responder. «E fazem-no muito motivados», diz Elsa Pinto. A coordenadora da EB1 do Cedro recorda que «chegámos a oferecer pipocas como prémio e tivemos muito sucesso, com muita participação. Vemo-los estudar sem ser necessário mandá-los fazer os trabalhos». Segundo Sérgio Mateus, o projecto Escolinhas.pt veio revelar-se uma ferramenta muito útil. O professor é o responsável pelo acompanhamento dos alunos do ensino especial e salienta que «para um aluno com hiperactividade, por exemplo, é muito mais fácil escrever um texto no computador. Com a máquina à frente, fica muito mais calmo e dá mais facilmente largas à sua imaginação». Para Sérgio Mateus, com o Escolinhas.pt e os computadores, os alunos do ensino especial «sentem-se mais integrados na turma e tornam-se mais autónomos».
O maior problema na criação do Escolinhas.pt, confessa Ademar, foi simplificar o programa para crianças «tão novas». «O maior desafio era que fosse intuitivo e muito fácil de usar», adianta. Por isso mesmo, e porque o projecto está em permanente desenvolvimento, o professor chama os seus alunos para com ele desenvolverem novas potencialidades. É o caso de João Valente, que está a fazer a tese de mestrado baseada no Escolinhas.pt e na sua «usabilidade». Mas afinal em que consiste? «A usabilidade é a forma de vermos como podemos ajustar a plataforma à realidade, ou seja, ao que as crianças necessitam.» João vai ter contacto directo com as crianças «e as ideias para melhorar a plataforma certamente vão surgir, ao falar com as crianças e ao perceber as suas necessidades no Escolinhas.pt».
Os encarregados de educação também têm uma palavra a dizer. Miguel Pêgo é pai de Isabel, que estuda na EB1 do Cedro. A menina tem 9 anos e faz parte da turma do quarto ano que a nm visitou. O encarregado de educação diz que o programa Escolinhas.pt veio facilitar-lhe a vida: «Motiva muito mais para estudar e é um suporte que, para eles, é muito fácil de usar e que os motiva, porque para além do estudo, podem comunicar com os colegas de turma.» Para Miguel Pêgo é também um programa que traz alguma tranquilidade aos pais porque é controlado, no que toca a redes sociais.

«É melhor do que certos programas da própria internet, onde podem fazer amizades com pessoas que não conhecem», admite, confirmando que «aqui temos a certeza de que estão a falar mesmo com amigos e colegas da escola. É também uma forma de acompanhar o estudo da Isabel a partir de casa», confessa o encarregado de educação. «É uma forma diferente de a acompanhar», garante «e é mais interessante porque ela ainda me ensina algumas coisas», confessa entre risos o pai, acrescentando que o programa também se mostra «mais aberto à criatividade».
Na sala de aula do 4.º C, os colegas de Isabel estão todos em volta do Escolinhas.pt. E todos querem falar do que mais gostam no programa. Enquanto Selma Almeida e Rita Ribeiro soltam as palavras mais amiúde, Luís Alves aproxima-se para rapidamente dizer que aquilo de que mais gosta «são as anedotas e as mensagens para os meus colegas». As companheiras de turma acenam em concordância com Luís. «O que mais gosto no Escolinhas.pt é que posso mandar mensagens aos meus amigos.» Rita gosta do facto de poder apagar e reescrever as composições e «ir mudando» consoante a inspiração. Já Selma destaca os «desenhos que se podem fazer no computador». Alguns afirmam que os pais controlam o que eles fazem na internet. Isabel Pêgo diz que o pai costuma estar ao lado dela nas pesquisas. Alguns também já experimentaram o Escolinhas.pt quando ficaram doentes em casa, podendo acompanhar a matéria com os colegas, fazendo trabalhos de casa e de grupo.
«Aqui é mais seguro», diz Miguel Pêgo em relação ao Escolinhas.pt. O pai faz questão de acompanhar Isabel nas suas incursões na internet: «Os pais devem acompanhar os filhos na internet. Convém que o computador não esteja no quarto deles, nem num escritório afastado. De preferência na sala, ou num local onde os pais possam estar presentes», diz o dinamizador do Escolinhas.pt. Para além de trabalho, o Escolinhas.pt é também uma ferramenta de interacção «entre pais, alunos e professores». «Cada aluno pode ter a sua página pessoal e um item de “actividade recente” que é um tipo de Twitter», explica Ademar Aguiar.
O programa Escolinhas.pt conta com cerca de duzentas escolas inscritas (públicas e privadas) de todo o país e a versão-base é grátis. Para o ano lectivo de 2010/2011 disponibiliza também uma licença Premium e pacotes especiais (estes sim, a pagar) para turmas, associações de pais, escolas, agrupamentos e autarquias. Em Setembro começou uma nova fase de inovação, com o projecto de investigação Escolinhas Criativas, que «vai resultar em actualizações da plataforma, para suportar novos media digitais, dos jornais à rádio e televisão, tudo pela Web e feita por crianças, pais e professores nas escolas», revela Ademar Aguiar. O Escolinhas.pt tem também parcerias com a empresa da Turma da Mónica, a RTP e a Microsoft Corporation.

O que é o Escolinhas.pt?
O Escolinhas.pt é uma plataforma, pensada especificamente para crianças entre 6 e 12 anos, que visa uma aproximação às Tecnologias de Informação e Comunicação (Internet, computadores e quadros interactivos). Nesta plataforma os alunos podem ler, escrever, desenhar, calcular, brincar e partilhar com os colegas de escola, amigos, encarregados de educação e professores «de forma segura e supervisionada».
«Tendo a colaboração e partilha como conceitos principais, as Escolinhas.pt oferecem um conjunto de funcionalidades típicas da Web 2.0 e Web Social (wiki, blogues, chat, rede social privada, microblogging, correio electrónico, etc.), especialmente seleccionadas e adaptadas aos ambientes escolares do 1.º e 2.º ciclos do Ensino Básico, de forma a serem de elevada usabilidade e simplicidade de aprendizagem», revela a apresentação do Escolinhas.pt.
Como plataforma escolar quer satisfazer três componentes básicas: a componente educativa, a lúdica e a social. O Escolinhas.pt permite armazenar textos, desenhos e imagens que podem ser enviados aos professores, corrigidos, revistos, avaliados e até expostos nos espaços internos à turma ou escola. Também tem jogos educativos, recursos digitais, vídeos e aplicações interactivas. Proporciona software social, promovendo a aprendizagem em grupo, através da partilha entre colegas de turma e de escola, professores e pais.
Na apresentação, pode ler-se que a ideia-base foi construir um «sistema simples, fechado e seguro de troca e partilha de trabalhos» e que também tem «mensagens de correio electrónico, mensagens curtas (microblogging), e mensagens em tempo real que permitem uma maior aproximação entre todos na comunidade educativa». Cada aluno pode partilhar informações que só são vistas pelos membros da sua turma e escola.
Os professores «podem também gerir os seus espaços, desde subscrever notificações sobre a actividade dos alunos, supervisionar, rever e avaliar os trabalhos digitais, publicar trabalhos e enviar mensagens a alunos e encarregados de educação».
O novo projecto Escolinhas Criativas, da Tecla Colorida, visa expandir a plataforma com novas funcionalidades e serviços que suportem a criação, colaboração e partilha de novos tipos de conteúdos digitais, para além do texto e desenho e incluir novos media. A Tecla Colorida – Software Educativo, Lda. resultou da parceria de três engenheiros informáticos: Ademar Aguiar, Mário Lopes e Nuno Baldaia, incluindo-se em 2009 a empresa Dueto, SGPS, SA.

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