Levar o ginásio à empresa

Se as pessoas não vão ao ginásio, então é preciso levar o ginásio às pessoas. Esta é a ideia que presidiu à criação de algumas empresas que se propõem pôr os trabalhadores a fazer exercício físico nos locais de trabalho – além de promover o bom ambiente entre colegas e ajudar a descontrair, é também uma forma de prevenir lesões «profissionais» que poderiam traduzir-se em custos altos para os empregadores.

Texto de Susana Ribeiro. Fotografia de Hernâni Pereira

Numa segunda-feira de manhã, a quietude dos gabinetes da Sonae Indústria é interrompida pelo som de uma música de Portishead para chamar a atenção de toda a gente. Secção a secção, os trabalhadores podem participar na ginástica que lhes é levada pela professora Gisela Lima, da Feel Active. «São aulas de ginástica mas não causam fadiga nem transpiração», informa a professora, que reconhece que «são cada vez mais as empresas que apostam no bem-estar dos trabalhadores e que ajudam a prevenir as doenças de trabalho». «Para quem não vai ao ginásio, nós levámos o ginásio à empresa», afirma Gisela Lima.

A Feel Active, para além da ginástica laboral, «pretende melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores» e «procura prevenir as Lesões Músculo-Esqueléticas Relacionadas com o Trabalho (LMERT) derivadas de esforço repetitivo». João Ferreirinha diz que, quando começaram com o projecto da Feel Active acharam que os maiores clientes «seriam de empresas fabris, como as de calçado, por exemplo. Acontece que a aceitação tornou-se maior em empresas ligadas ao trabalho de escritório».

Gisela Lima fala da experiência que teve numa empresa de telemarketing em que havia lesões «devido ao uso do telefone junto ao ouvido, em vez do uso de auscultadores. Eles eram fornecidos aos trabalhadores, mas não os usavam». «Cerca de 24 por cento dos trabalhadores da União Europeia sofre de lombalgias e 22 por cento de dores musculares», lê-se no material fornecido pela Feel Active.

Na fábrica da Sonae Indústria, na Maia, sete trabalhadores preparam-se para a aula de ginástica laboral. São três mulheres e quatro homens que trabalham na secção dos laminados há mais de três décadas. António Pereira faz os exercícios, com ar de concentração, enquanto rola bolas de ténis pelos ombros e omoplatas dos colegas de trabalho. Nesta fase de relaxamento, António admite que «devíamos fazer ginástica todos os dias». Maria da Glória Alves atesta que estes exercícios «são muitos bons» e até confessa: «Tenho pena que seja só por alguns minutos.» «Nota-se sempre a diferença, relaxamos os músculos e é uma maravilha», diz a trabalhadora. A professora Gisela Lima arruma o material, pega no rádio e continua o seu périplo pelos gabinetes da Sonae Indústria.

A empresa providencia outros serviços, como o trabalho da dinâmica de grupo, stress ocupacional e workfitness, com actividade física depois do trabalho. Com a ginástica laboral garantem que «os efeitos são positivos na produtividade, além de ajudar a gerar bom ambiente», informam, apoiados em estudos sobre a temática. Mas os serviços que prestam às empresas não se cingem à ginástica laboral. «São feitas análises de correcção postural e o nosso trabalho é transposto também para fora do local de trabalho, dando conselhos para uma alimentação e um estilo de vida mais saudáveis», explica Gisela Lima.

Bom início de semana
A grande aposta da Feel Active está na prevenção «para diminuir baixas e doenças ligadas ao exercício profissional, diminuir a incidência de problemas físicos crónicos em muitas empresas e porque os trabalhadores com problemas de saúde são muitas vezes encostados a um canto».
A professora bate à porta dos escritórios e convida todos para as aulas de ginástica laboral. «A ideia é que todos participem, mas muita gente não consegue disponibilizar esses 15 minutos para relaxar e aprender exercícios que podem prevenir muitas doenças laborais», adverte Gisela Lima.

A aula começa com alongamentos e «ajuda a largar a preguiça do fim-de-semana», dizem alguns dos trabalhadores. «Respira fundo e deita o ar cá para fora», sugere a professora enquanto faz os alongamentos iniciais.
Os participantes começam a surgir dos vários gabinetes da Sonae Indústria. São de várias idades, homens e mulheres, que se reúnem num espaço amplo onde fazem os exercícios. As mulheres de saltos altos descalçam-se para relaxarem ao máximo. Ao longe ainda se ouve uma fotocopiadora a trabalhar, mas a música relaxante dá lugar às aulas de ginástica.

Hélder Machado trabalha há oito anos na sua secretária: «Passamos muito tempo sentados e este tipo de exercícios só faz bem. Até devíamos fazer isto mais vezes durante a semana». Ana Fonseca, está há dois anos e meio na Sonae Indústria e diz que «é uma boa maneira de começar a semana». Paula Pinto é uma das mais antigas deste grupo. Trabalha na empresa há 24 anos e salienta que «são exercícios muito agradáveis, e mesmo em casa faço os alongamentos. Noto que se soltam mais os músculos e se ganha maior flexibilidade».
Na secção de atendimento ao cliente têm de estar sempre atentos aos telefones, mas durante a ginástica os trabalhadores esperam que os mesmos não toquem. «A ideia é prolongar os exercícios durante o dia de trabalho e durante toda a semana. Os problemas de costas e articulações são conversados e não é só em 15 minutos que se resolvem, necessitam de um trabalho mais profundo», acentua João Ferreirinha, da Feel Active.

Maria Filomena Cerqueira trabalha há vinte anos na Sonae Indústria. Larga os saltos altos e põe-se à vontade para a aula de relaxamento: «Nem sempre tenho disponibilidade, mas é óptimo.» José Mesquita trabalha na empresa há 26 anos e, para além de praticar desportos regularmente, considera que «estes 15 minutos são muito bons. São óptimos para relaxar e para começarmos bem a semana. Também vejo que ajuda a reforçar o espírito de equipa». Maria Fernanda Costa nota diferenças no seu dia-a-dia: «Tenho problemas na cervical e os exercícios têm ajudado muito.»

A professora Gisela vai percorrendo os corredores entre secções dentro da Sonae Indústria, convidando todos para a aula. Pousa o rádio, inicia a música e já tem um novo grupo que rapidamente se levanta da cadeira para participar. Na secção de informática, Ana Sofia Carneiro, que ali trabalha há dez anos, diz que «o dia fica sempre diferente. Às vezes temos de ser um pouco empurrados para isto, há sempre coisas a fazer, mas são 15 minutos que compensam e fazemos o esforço, afinal é para o nosso bem. Devíamos prolongar os exercícios durante o dia e durante o resto da semana, mas por vezes esquecemo-nos».

Paulo Oliveira é um dos novatos. Mesmo só trabalhando há um ano na empresa, admite sentir os benefícios das aulas de ginástica laboral: «Desperta-nos logo pela manhã e aprendemos a relaxar os músculos, que ficam tensos dos movimentos repetitivos nos computadores. Sei que devia fazer os exercícios mais vezes durante o dia, mas o tempo vai passando…».

«Juntar grupos proporciona o contacto e o convívio de colegas que muitas vezes nem se falariam por estarem tão embrenhados no trabalho. Por isso, as aulas também ajudam na coesão do grupo», afirma João Ferreirinha.
Na Sonae Indústria o «programa de ginástica laboral surgiu durante a Semana Temática da Saúde e Bem-estar, que teve como objectivo a sensibilização para a adopção de estilos de vida saudáveis, alimentação saudável, exercício físico e para o tema do stress no trabalho», recorda Joana Castro Pereira, dos Recursos Humanos: «A iniciativa teve uma enorme aceitação por parte dos colaboradores, que deixaram sugestões, e uma delas foi terem ginástica no seu local de trabalho.»

«Na avaliação do programa os resultados foram excelentes e revelaram que as pessoas sentiram melhorias em relação ao espírito de grupo, à interacção entre colegas e ao humor no trabalho, verificando-se ainda a diminuição do stress em algumas pessoas e a melhoria da motivação no trabalho, ou seja, atingimos todos os objectivos ao qual nos tínhamos proposto inicialmente», refere Joana Castro Pereira.

Prevenir as LMERT
A funcionar para já só a sul do país, a WorkWell nasceu pela mão de quatro profissionais da área da Educação Física e Desportiva, com um projecto para  implementar programas de ginástica laboral. «Mais do que tratar», dizem, «o objectivo é prevenir as lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho (LMERT)». João Borges, da WorkWell, afirma que têm «alunos dos mais altos quadros até aos sectores de produção/operário. Muitas vezes fazem as aulas juntos, o que promove um óptimo ambiente dentro da empresa, sendo um exemplo para todos». Os exercícios são realizados no local de trabalho e os materiais são fornecidos pela WorkWell. «A única coisa de que os colaboradores necessitam, é de vontade de relaxar, enquanto previnem o aparecimento de lesões e melhoram a sua saúde e condição física geral», clarifica João Borges.

«Os objectivos e benefícios da prática de ginástica laboral dividem-se em duas grandes áreas. Por um lado, a prevenção do aparecimento de LMERT. A análise feita aos clientes permite-nos confirmar que foi diminuída a taxa de incidência deste tipo de lesões. O outro lado prende-se com a melhoria do bem-estar geral dos colaboradores e do ambiente psicossocial da empresa», refere João Borges realçando que «está provado cientificamente que a prática regular de ginástica laboral reduz os níveis de stress no trabalho, melhora a capacidade de concentração, a condição física e daí a capacidade de trabalho, assim como melhora as relações entre colegas de trabalho». «Outro dos objectivos é a sensibilização para os hábitos de vida saudável, que tanta falta fazem entre os portugueses. Acaba por ser a nossa vertente mais educativa e formativa, que tem apresentado resultados muito positivos», informa.

«Muitas empresas procuram-nos devido ao facto de terem grandes despesas com doenças ocupacionais, acidentes de trabalho e problemas de motivação e produtividade», revela João Borges. Mas a WorkWell também é contactada por «empresas que têm em vista a optimização e a actualização da sua estrutura de funcionamento», indica.
Um dos clientes da WorkWell é a Resul. «Sabemos que nos dias que correm cada vez mais os colaboradores sofrem influências do mundo laboral, quer seja por excesso de carga horária quer seja do próprio tempo que passam com os outros colegas no mesmo ambiente, do barulho, e essencialmente de exigências interpessoais, já para não falar das influências fisiológicas, como falta de exercício», admite Mónica Castim. Para a representante da Resul, a combinação daqueles factores «pode afectar, a longo prazo, o rendimento individual de cada um, acarretar patologias, o que irá resumir-se a um aumento do índice de stress».

De acordo com Mónica Castim, «o aparecimento da WorkWell na Resul veio colmatar em muito todos estes problemas, uma vez que a ginástica laboral melhora as capacidades e funções corporais para a realização do trabalho, prevenindo desta forma o aumento da fadiga, dos problemas posturais além dos próprios benefícios pessoais». Mónica Castim refere ainda que na Resul «o principal objectivo é proporcionar aos colaboradores alguns momentos de descontracção, de libertação física e aumento de motivação».

No final, a avaliação mostra que o objectivo é alcançado: «Verificam-se resultados bastante positivos na qualidade de vida dos colaboradores como a diminuição da fadiga, diminuição de algumas lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho e mesmo com a tensão diária, e igualmente uma maior interacção entre os colaboradores traduzindo-se tudo isto numa maior motivação não só a nível profissional, como também pessoal», conclui Mónica Castim.

CONTACTOS
Feel Active: http://www.feelactive.pt
WorkWell: http://www.workwell.pt

(publicado na Notícias Magazine no dia 21 de Fevereiro de 2010)